Sociedade não aceita recasamentos, afirma psiquiatra americana
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de agosto de 1999
Por Roberta Jansen 
Rio, 27 (AE) - A sociedade ainda não aceita muito bem os chamados "recasamentos" (situação em que uma pessoa se separa do primeiro cônjuge e se casa novamente, formando uma nova família), o que pode causar sérios problemas psicológicos aos envolvidos. O tema foi debatido hoje pela psiquiatra americana Monica McGoldrick, especialista em terapia familiar, no II Simpósio Internacional de Terapia Familiar Sistêmica, que está sendo realizado na cidade. "Nossas instituições sociais não compreendem e não aceitam as novas famílias que se formam com os recasamentos", disse Monica. "Muito embora os novos casamentos sejam comuns hoje em dia, a sociedade ainda é estruturada de forma a acreditar na indissolubilidade das primeiras uniões". Na avaliação da especialista em terapia familiar, essa não-aceitação cria problemas para os envolvidos, principalmente as crianças, que se sentem "anormais". "Em muitos casos, não existem nem palavras para designar as novas relações de parentesco, o que deixa as crianças em situações embaraçosas", afirmou Monica.
"Os pais do padrasto de uma criança, por exemplo, são o que dela?" As crianças também enfrentam problemas em casa, no convívio com irmãos postiços, padrastos ou madrastas. Na avaliação da psiquiatra, as madrastas são muito cobradas socialmente. "A sociedade espera que ela cumpra um papel de mãe
o que não é justo", disse. "Não é porque uma mulher se apaixona por um cara que, necessariamente, vai amar os filhos dele". Violência - Monica citou pesquisas realizadas nos Estados Unidos
segundo as quais os índices de violência, abuso sexual e incesto são muito mais altos em situações de recasamento do que nas primeiras uniões. "Há uma falta de preparo das pessoas para lidar com essa nova situação", constata. "O conselho que damos a padrastos e madrastas é que nunca tentem assumir os papéis de pai e mãe, mas sim de um tio ou um vizinho".
Para ela, os pais biológicos devem assumir integralmente a responsabilidade pelos filhos, cabendo ao novo cônjuge um papel secundário. Na palestra de hoje, a psiquiatra falou também da importância, para a terapia familiar, dos genogramas - espécie de árvore genealógica que busca conhecer o comportamento e as relações dentro da família, estudando coincidências de datas, profissões, perdas, entre outros acontecimentos. Segundo Monica, a influência da história familiar se nota por até quatro gerações. "Não se pode estudar um caso isolado", afirmou. "Tudo faz parte de uma história maior".


