Paris, 09 (AE) - Os chefes de governo da Grã-Bretanha, Tony Blair, e da Alemanha, Gerhard Schroeder, divulgaram um manifesto conjunto com o objetivo de converter a esquerda européia ao social-liberalismo. O texto foi submetido aos socialistas franceses, que preferiram manter sua especificidade, não aceitando essa evolução preconizada pela social-democracia alemã e pelos trabalhistas britânicos - mesmo porque, segundo eles, o documento contradiz a plataforma comum dos partidos socialistas da Europa, recentemente aprovada.
Nesse documento, eles expõem as grandes linhas de uma "política de modernização da esquerda européia", mais preocupada com uma maior eficácia econômica e social, por meio da redução dos impostos sobre as empresas e de maior flexibilidade do mercado de trabalho. O texto critica a existência de um certo anacronismo do socialismo francês, sem citar isso diretamente.
Os socialistas franceses, diante da grande repercussão do documento assinado por Blair e Schroeder, procuram minimizar seu alcance. O primeiro-ministro Lionel Jospin não se reconhece nesse movimento da "terceira via" e, quando indagado sobre o manifesto de seus colegas social-democratas, afirma: "Não. Somos diferentes. Somos menos ligados ao atlantismo e isso por causa de uma velha tradição francesa não só da esquerda, mas também de partidos que não se reconhecem na esquerda francesa."
Já para o primeiro-secretário do Partido Socialista, François Holande, a partir de agora haverá uma competição para saber "quem vai obter melhores resultados contra o desemprego e as desigualdades". De qualquer forma, os socialistas franceses não escondem um certo mal-estar, às vésperas do encerramento da campanha para o Parlamento Europeu, durante a qual desenvolveram o tema da unidade dos governos social-democratas que dominam atualmente a União Européia.
Para muitos analistas, essa diferença é menos importante do que se imagina, mesmo porque Jospin vem desenvolvendo um programa de abertura econômica e de privatização quase tão significativo quanto o promovido, no passado, pelo governo conservador britânico de Margaret Thatcher. Por isso, o primeiro-secretário do Partido Comunista, Robert Hué, cujo partido integra a maioria pluralista francesa, afirmou que os social-democratas europeus são todos "farinha do mesmo saco". O ex-primeiro-ministro francês Michel Rocard justifica essa diferença lembrando que, há séculos, a Inglaterra e a Alemanha são nações comerciais, enquanto a Franca sempre foi um país rural e jurídico, o que explica sua originalidade.
Jospin sempre rejeitou a idéia de uma "terceira via" entre socialismo e liberalismo, ou a do "novo centro" de Schroeder, encontrando-se, agora, isolado no cenário europeu.
Em 27 de maio, os social-democratas de toda a Europa - Blair, Schroeder, Felipe González, Antonio Guterres, Jospin e outros -, reunidos num grande comício em Paris, haviam chamado a atenção para tudo que podia aproximá-los. Mas agora, com o manifesto assinado por Blair e Schroeder, eles destacam tudo que pode diferenciá-los.
Essa nova plataforma comum de centro-esquerda, a meio caminho da social-democracia e do liberalismo, condena a harmonização fiscal, tão reivindicada pelos socialistas franceses, lembrando que esse modelo não é apropriado às atuais circunstâncias econômicas. Esse pacto, nascido de um grupo de trabalho germano-britânico, critica a confusão existente entre "justiça social e igualdade de renda", o que leva a negligenciar "a importância da recompensa do esforço e da responsabilidade".
Ele preconiza também a redução das despesas públicas, a simplificação e diminuição dos impostos sobre as empresas e uma ajuda às pequenas e médias empresas. Para Blair e Schroeder, o papel do Estado deve ser bem mais modesto, devendo agir como guia, não como regente de tudo. O documento critica o excesso de impostos, que não favorece nem os investimentos nem o crescimento das nações. E assinala que é preciso acabar com o antagonismo arcaico entre empregadores e assalariados.

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