Socialista Lagos assume presidência chilena11/Mar, 13:36 Valparaíso, 11 (AE-ANSA) - O socialista Ricardo Lagos assumiu neste sábado (11) a presidência do Chile numa sessão solene do Congresso e ante a presença de delegações de 60 países, incluindo a liderada pelo presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso. O presidente do Senado chileno, Andrés Zaldívar, deu posse ao presidente eleito em 16 de janeiro por volta do meio-dia de hoje (mesmo horário de Brasília), no Salão de Honra do Parlamento chileno, em Valparaíso, cidade localizada a 110 quilômetros da capital do país, Santiago. Economista e advogado de 62 anos, ex-colaborador e considerado o herdeiro político de Salvador Allende, Lagos chega ao poder num momento de tensão nas relações entre o governo e as Forças Armadas do Chile. Os ânimos se acirraram com o retorno ao país, dia 3, do ex-ditador Augusto Pinochet - que em 1973 derrubou Allende num golpe sangrento e, em outubro de 1998, foi detido na Grã-Bretanha - e com a recepção organizada para ele no aeroporto de Santiago pelo comandante-chefe das Forças Armadas, general Ricardo Izurieta, e por outros altos oficiais militares. Temia-se que Pinochet pudesse utilizar-se de sua condição de senador vitalício para, num desafio aberto ao governo, comparecer à cerimônia de posse. O ex-ditador, porém, manteve-se numa casa de veraneio a 200 quilômetros de Santiago, para onde viajou na quinta-feira. Lagos é o terceiro presidente eleito a assumir o poder no Chile desde o fim do regime militar liderado por Pinochet, em 1990. Antes dele, dois democrata-cristãos, Patricio Aylwin e Eduardo Frei, passaram pela presidência. Democrata-cristãos e socialistas integram a coalizão centro-esquerdista Concertación Democrática. Primeiro socialista a dirigir o Chile desde a queda de Allende - que morreu no Palácio de La Moneda em meio ao golpe de Pinochet -, Lagos precisou de dois turnos eleitorais para vencer o direitista Joaquín Lavín, um jovem economista que colaborou com Pinochet, mas afastou-se dele durante a campanha eleitoral para não perder os votos dos chilenos moderados. No primeiro turno, em dezembro, os dois candidatos ficaram praticamente empatados. No segundo, a vantagem de Lagos foi de pouco mais de dois pontos porcentuais: venceu por 51,31% a 48 69%. A atuação política de Lagos está intimamente vinculada à redemocratização do país. Em 1988, durante um debate na televisão sobre o referendo que no ano seguinte acabaria por determinar o fim do regime militar, Lagos aproximou-se da câmera com o dedo em riste para acusar Pinochet de "mentiroso" e "ambicioso" por querer manter-se no poder. Dois anos antes, depois de uma fracassada tentativa de guerrilheiros esquerdistas de assassinar Pinochet, Lagos foi um dos vários políticos esquerdistas presos pelos serviços de segurança do Estado, embora não tivesse nenhuma ligação com o atentado. O conflito com as hostes pinochetistas nas Forças Armadas mantém-se ativo. Uma semana antes da posse, em entrevista concedida em Santiago, Lagos deixou claro que não permitirá ingerência dos militares nos assuntos políticos. "As Forças Armadas terão de cumprir seu papel num Estado plenamente democrático, mostrando-se disciplinadas, obedientes e não-deliberantes", afirmou. Além de Fernando Henrique, participaram da cerimônia de posse o presidente argentino, Fernando de la Rúa, o uruguaio Jorge Batlle e o paraguaio Luis González Macchi - líderes dos países do Mercosul, do qual o Chile é membro associado e pretende assumir um papel de maior destaque durante o governo de Lagos. O presidente peruano, Alberto Fujimori, cancelou a viagem ao Chile surpreendentemente e sem dar explicações na sexta-feira. O cubano Fidel Castro, contra quem há no Chile uma acusação criminal semelhante às que pesam contra Pinochet na Europa, enviou o parlamentar Carlos Lage como seu representante.