São Paulo, 27 (AE) - O resultado do leilão de venda da Companhia de Energia Elétrica do Tietê, a segunda geradora paulista a ser privatizada, não poderia ter sido mais inesperado. A AES arrematou a Cesp Tietê por R$ 938 milhões, pagando ágio de 29% sobre o preço mínimo. Nada mais surpreendente sendo ela uma das sócias privadas da Cemig e atualmente um dos pivôs de uma disputa judicial para retomar o assento na direção da estatal mineira.
O receio causado entre alguns investidores estrangeiros - a Duke Energy, por exemplo - de que o episódio da Cemig se repetisse em São Paulo não mudou os planos da empresa, que em apenas 18 anos de existência tornou-se a maior geradora de energia elétrica dos Estados Unidos. "Minas é um caso isolado, jamais nos preocupamos que isso pudesse ocorrer em São Paulo", assegurou o presidente da AES no Brasil, Luiz David Travesso. "O que garantiu a nossa participação foi o financiamento do BNDES."
Segundo informou, a AES buscou recursos no mercado nacional e internacional, mas só a linha do BNDES convenceu a empresa a disputar o leilão. Travesso disse que vai utilizar os R$ 360 milhões do BNDES e o resto virá de capital próprio do exterior. A liquidação financeira da operação ocorre dentro de dez dias.
Distância do BNDES - O governador Mário Covas reconheceu que o leilão esteve ameaçado pela possibilidade de haver desistências, mas foi aconselhado a mantê-lo por seus assessores antes mesmo de o BNDES estender o empréstimo aos compradores estrangeiros.
O banco decidiu na terça-feira, véspera do leilão, financiar também o capital estrangeiro. Segundo fontes do mercado, alguns grupos internacionais estavam reivindicando o mesmo benefício que teriam os grupos nacionais.
A decisão permitiu até que a AES desbancasse a Gerasul, controlada pela companhia belga Tractebel, cujo lance embutia um ágio de apenas 5,47% sobre o preço mínimo, mas provocou descontentamento numa das favoritas do leilão, a VBC Energia. A holding VBC Energia é formada pelos Grupos Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa e era o único consórcio nacional habilitado a disputar o leilão, mas não chegou a entregar o envelope com a proposta de compra.
"O BNDES mudou as regras do jogo na última hora", justificou o superintendente do Grupo Votorantim, Antonio Ermírio de Moraes. "Com o financiamento do BNDES limitado aos grupos nacionais nós teríamos condições de enfrentar grupos internacionais fortes, mas do jeito que ficou não dava para participar", disse. "Do jeito que está não vai sobrar uma empresa nacional para contar a história."
O governador Covas não quis comentar o apoio do BNDES à privatização de São Paulo. "Não temos nada a ver com isso", afirmou, acrescentando que nem ele, muito menos alguém do seu governo foi pedir algo ou negociar com BNDES. Mesmo sem ter participação na obtenção do apoio, o governador comemorou o resultado. Para ele, o valor total obtido com a venda supera os R$ 938 milhões porque a empresa vai comprar também a parte dos empregados e arcar com dívida da Cesp Tietê no valor de R$ 1 bilhão.
Do total arrecadado com a venda da companhia, R$ 382 milhões vão ser usados para quitar parte da dívida do Estado de São Paulo com a União, que vence em 30 de novembro. Os outros R$ 600 milhões obtidos no leilão de hoje vão para o cofre do Estado. Covas não especificou onde os recursos serão aplicados, afirmando apenas "que tinha muitas contas para pagar", mas descartou a possibilidade de destinar ainda mais verbas para a segurança.
Os investimentos feitos pela AES Coporation no Brasil somam US$ 4 bilhões e incluem a compra da AES-Sul (antiga CEEE), por R$ 1,5 bilhão, parte do controle da Cemig e da Light; participação na Eletropaulo Metropolitana e em duas termoelétricas; e a construção da termoelétrica de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Agora, a Cesp Tietê, que estava nos planos da empresa como um investimento sem parcerias. "O Brasil é o país que mais recebe investimentos da AES fora os Estados Unidos", disse, Travesso. O investimento mínimo na Cesp Tietê soma pouco mais de US$ 350 milhões.

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