Buenos Aires, 01 (AE) - "O que vi, não esqueço nunca mais", disse José Amallo, um dos sobreviventes do acidente do avião da Lapa, que no dia seguinte à catástrofe visitou o local da tragédia.
Ele relatou à AE que quando o avião começou a taxiar, estava lendo placidamente. "Depois, deixei a revista e comecei a olhar a pista, mas imediatamente percebi que logo após levantar-se no ar, aterrisava, de forma tranquila. Não caiu, como dizem. Até pensei que ia tentar outra vez decolar, mas aí comecei a sentir que o avião estava chocando-se sem parar contra objetos, e ouvi uma explosão".
Nesse momento, segundo Amallo, que estava sentado na fila 16, "vi pela janela que as chamas vinham da frente para trás". Amallo conseguiu pular pela porta traseira do aparelho. Depois de sair, Amallo, que é médico, ajudou a socorrer os primeiros feridos. Na mesma fila estavam os irmãos Eduardo e Jorge Velazco, campeões de windsurf.
Segundo Eduardo, ao ver o avião em chamas, pulou para fora do avião por um buraco na fuselagem. Seu irmão saiu pelo outro lado, pela porta de emergência. Do lado de fora, abraçaram-se.
Hoje de manhã, tanto o Aeroparque quanto os principais hospitais da cidade foram tomados por parentes e amigos das vítimas que tentavam descobrir o paradeiro das pessoas desaparecidas que não haviam voltado para casa, e que poderiam ter passado pela avenida Costanera no momento do acidente.
A falta de informações da empresa Lapa contribuiu para o desespero: esta dúvida tomou conta de Danny Bojanovich, um cordobês, marido de Griselda, uma mulher desaparecida, que disse à AE hoje que sua esposa voltaria esta semana para Córdoba. Bojanovich ficou sabendo pela TV do acidente, "aparentemente, ela havia embarcado nesse vôo...ela não entrou em contato comigo ontem à noite", afirmou chorando em Buenos Aires, para onde foi às pressas.
Além dele, outras pessoas procuravam maridos e amigos. Irinea Kademian, uma jovem que ia viajar no avião, mas acabou mudando de idéia, supreendeu-se ao ver seu nome em uma das listas extra- oficiais de pessoas "desaparecidas". Segundo ela, "é uma falta de respeito da empresa com os parentes que não sabem o que aconteceu com seus entes queridos".
Além dos sobreviventes, os motoristas que passavam pela Avenida Costanera foram surpreendidos pela insólita passagem do avião diante de seus carros. Guillermo, um motorista que ia em direção ao norte da Grande Buenos Aires comentou com um amigo que ia junto como o avião da Lapa estava voando baixo: "parece até que vai passar raspando na gente", disse-lhe.
O avião passou a menos de 30 metros. Ele viu como o avião levou pela frente um ponto de ônibus com as pessoas que estavam ali esperando.
Outro motorista comentou como viu o avião passar na sua frente e pelas janelinhas do Boeing viu os rostos de horror dos passageiros. Diversas pessoas que passavam com seus carros ajudaram a resgatar os passageiros. No entanto, admitiram que não foi possível retirar todos os que ainda estavam vivos e pediam ajuda pelas janelas e frestas. Impotentes, os motoristas viram como essas pessoas eram queimadas vivas.
Na manhã seguinte à catástrofe, o campo de Golfe da Associação Argentina de Golfe, parecia um cenário de batalha: estava coalhado de destroços, tijolos, e manchas de sangue. Como em um quadro surrealista, um dos trens de aterrissagem jazia ao lado de um ancinho utilizado para manter impecável o gramado do campo de golfe.
Tacos e bolas de golfe espalhavam-se pelo local, abandonados às pressas pelos jogadores quando viram que o avião se aproximava a quase 200 quilômetros por hora.
Também estavam espalhados restos de comida de um jantar que os passageiros do vôo 3142 nunca chegaram a comer. Dezenas de curiosos aproximaram-se do lugar, e tentavam levar dali um resto do avião, como tétrico "souvenir".

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