Sobreviventes de Jonestown lembram de tragédia na Guiana
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terça-feira, 04 de abril de 2000
Por Michelle Locke 
Oakland, 05 (AE-AP) - Enquanto Jynona Norwood ouve detalhes das mortes do culto em Uganda - o líder megalomaníaco, os ensinamentos apocalípticos, os pequenos corpos envolvidos em morte não natural - ela relembra.
Sua memória volta 22 anos para outra utopia que se transformou em um inferno, para Jonestown, onde a mãe dela e 26 outros membros de sua família morreram.
"Sim, isto me joga para o passado e me traz de volta lembranças dolorosas que a gente nunca realmente supera", disse ela. "Isto apenas torna minha viagem um pouco mais urgente. Quantas crianças mais têm de morrer?"
Para Deborah Layton, que fugiu de Jonestown pouco antes das mortes, o misterioso Movimento para a Restauração dos Dez Mandamentos de Deus, em Uganda, está também remexendo suas memórias.
"Ninguém se une a um culto. Você se une a um grupo de auto-ajuda, um movimento religioso, uma organização política", afirmou Layton. "Eles mudam tão gradualmente que, quando você percebe que caiu numa armadilha - e quase todos percebem -, você não consegue conceber uma forma segura de recuar."
Enquanto as mortes em Uganda fazem as atenções se voltarem novamente para o obscuro mundo dos cultos, as imagens dos mortos e inocentes traídos têm uma ressonância especial junto àqueles que viveram a loucura de Jonestown.
As semelhanças são arrepiantes: os dois casos ocorreram em remotos locais tropicais. Ambos eram comandados por líderes carismáticos que ofereciam uma vida melhor. Ambos cobraram muitas vidas. O total resvala no surreal.
Em Uganda, o desastre foi aparentemente precipitado pelo fato de não se concretizarem as previsões dos líderes do culto de que o mundo iria acabar em 31 de dezembro de 1999. Em 17 de março, 530 seguidores foram queimados vivos numa capela, consumidos por chamas alimentadas por gasolina e presos por portas e janelas trancadas pelo lado de fora.
Outros 394 corpos foram encontrados em instalações do culto, muitos esfaqueados, estrangulados e enterrados em valas comuns. O número de mortos ainda pode aumentar.
Jim Jones rumou para seu refúgio na América do Sul, na Guiana, junto com 1.000 de seus seguidores, em meio a questionamentos sobre o lado obscuro de seu Templo do Povo, o espancamento de membros recalcitrantes, as curas falsas.
Jones atraiu multidões à sua maluca congregação interracial com promessas de construir um mundo melhor, e políticos, com sua capacidade de produzir votos.
O fim veio em novembro de 1978, quando o congressista norte-americano Leo Ryan visitou a Guiana a fim de investigar denúncias de que o Templo do Povo estava cometendo abusos contra seus membros e mantendo alguns contra suas vontades.
A delegação de Ryan foi recebida com sorrisos. Mas quando eles se preparavam para partir, membros do culto mataram o congressista e quatro outros americanos. Naquela noite, Jones deu sua ordem final.
As crianças morreram primeiro: bebês foram mortos com veneno introduzido em suas bocas com seringa. Então os adultos. A maioria foi envenenada com um ponche misturado com cianeto, alguns à força. Outros foram baleados por guardas de segurança. Jones foi encontrado com um tiro na cabeça, não se sabendo se foi suicídio ou assassinato. Pelo menos 913 de seus seguidores pereceram.
Em suas memórias, "Seductive Poison" ("Veneno Sedutor"), Layton relata como foi atraída pelas respostas que Jones parecia oferecer, tornando-se eventualmente uma vice confiável. Mas em maio de 1978, ela estava pronta para escapar.
"Isso acontece, e vai continuar acontecendo, porque na vida de muita gente inclusive na América há uma perda de identidade, uma solidão, e as pessoas querem se agrupar, compartilhar suas experiências", diz Layton.
Jim Jones Jr., o filho adotivo do líder de Jonestown que se salvou por ser membro de um time de basquete, acha que não há uma explicação convincente para as mortes. "Acho que não há uma resposta pronta para isto. Eu só acho que tragédias como essas acontecem. Já aconteceram no passado, e acho que não há como se prevenir delas."
Jynona Norwood estava dando um jantar em São Francisco (Califórnia) quando seu tio telefonou e avisou para ela ouvir o noticiário. Ela nunca se vinculou ao Templo do Povo, mas sua mãe
sua avó e muitos outros parentes, sim. Agora, como pastora de uma igreja ao sul de Los Angeles, ela organiza todo ano uma cerimônia religiosa no cemitério de Evergreen, Oakland, onde repousam numa vala comum mais de 400 vítimas de Jonestown crianças, na maioria.
"Eu penso em minha mãe e em tudo o que aconteceu em Jonestown todos os dias", desabafa Norwwod. "Pego meu carro e desço a rua pensando em milha família". Ela tentou construir um monumento em memória das vítimas de Jonestown.
"Ainda é traumático ver o número 900", ela comenta a respeito da tragédia em Uganda. "Quase 22 anos se passaram, e ainda não conseguimos aprender as lições deixadas por Jonestown."


