Sobreviventes chegam desassistidos à adolescência
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sábado, 08 de julho de 2000
Lúcio Flávio Moura Enviado a Florestópolis 
Florestópolis (73 km ao norte de Londrina), município que abrigou com sucesso o projeto-piloto da Pastoral da Criança, está preocupado com a primeira geração de adolescentes carentes que venceu a mortalidade infantil mas ainda não derrotou a miséria, o desemprego e a falta de perspectivas de avanço sócio-econômico.
Depois de décadas de convivência com índices africanos de desnutrição entre crianças até um ano de idade, que resultavam em 127 bebês mortos em cada mil nascidos vivos (dados de 1983, ano da instalação da pastoral na paróquia), a cidade encara um novo desafio: cuidar de jovens que perambulam pelas ruas, sem lugar no restrito mercado de trabalho e sem motivação para estudar.
Uma parte destes adolescentes foi seduzida pelo mundo das gangues. Eles arrombam residências, pontos comerciais, picham muros, se envolvem em brigas e usam drogas, das mais leves até o crack.
Outros, desprovidos da capacidade de conviver em qualquer ambiente socializado, perpetuam práticas herdadas de pais e avôs, e aliviam no bar entre fliperamas, mesas de sinuca e doses de cachaça a opressão de uma jornada de até 12 horas na época do trabalho duro nos canaviais, ou a monotonia dos angustiantes dias de penúria e ócio da entressafra.
As garotas se casam cedo, muitas vezes apressadas pela gravidez e pela falta de alternativa econômica. Param de estudar e trabalhar (quase sempre no corte de cana), comprometem o futuro profissional e a renda familiar, vivendo em busca de auxílio do poder público e da boa vontade de iniciativas assistencialistas.
O quadro chama a atenção da Igreja Católica, a única instituição da cidade que escancara o problema e quer enfrentá-lo. Aproveitando a auto-confiança de líderes e da população na vitoriosa campanha pela erradicação da desnutrição e da mortalidade infantil, o vigário, padre Manoel Idalgo, está preparando os fiéis para a formação da Pastoral do Adolescente, projeto pioneiro no País. A ídeia é envolver professores, famílias e voluntários em um mutirão capaz de construir novos parâmetros na relação entre a sociedade e esta geração perdida.
Enquanto os grupos de trabalho comunitário não começam a resolver o problema com conscientização, alguns paliativos minimizam a situação. Um proprietário de terras cedeu à Prefeitura e ao Conselho Tutelar um sítio onde cerca de 40 garotos complementam a carga horária escolar com atividades ligadas à agricultura.
Em um alqueire, os adolecentes sujam as mãos e acalmam os nervos cultivando hortaliças, colhendo milho e arrancando pés de mandioca. No próximo ano, eles terão mais o que fazer. O grupo deverá colher café e trabalhar em uma marcenaria, projetos que também estarão usando a estrutura da propriedade.
No Colégio Estadual Professora Eudice Ravagnani o maior de Florestópolis com 1,3 mil alunos no ensino fundamental e médio, os adolescentes infratores e a direção venceram o comportamento inconveniente das gangues que rondavam a escola com um trabalho de dança de rua que já foi até premiado. Hoje, as gangues respeitam o espaço público, funcionando até como inibidor de possíveis ameaças de arrombamento e depredação da escola.
O prefeito Nelson Gonçalves Correia (PFL), um ex-gato (agenciador de trabalhadores rurais) que fez carreira na Destilaria da Cofercatu e conhece bem o drama social inerente aos pólos canavieiros, concorda que o contexto em que vive o adolescente é o maior limitador para que esta faixa etária ajude a formar uma nova realidade sócio-econômica no município.
Uma proposta que prevê soluções para a questão social, ambiental e econômica do município pode diversificar as alternativas de emprego e renda, além de unir lideranças políticas e econômicas em torno de um amplo projeto. Florestópolis é um dos 11 municípios banhados pelo reservatório da Hidrelétrica de Capivara que receberão investimentos de um dos grupos privados que assumiu o controle das usinas paulistas.
Como compensação aos danos no ecossistema da região, a Duke Energy International (que administra as oito usinas do Rio Paranapanema, que faz a divisa entre São Paulo e Paraná) vai investir R$ 22 milhões na recuperação ambiental e em obras de infra-estrutura turística. A promessa é que nos próximos sete anos o projeto criará 3,2 mil postos de trabalho temporário. Se o pólo turístico for consolidado, dependeremos muito menos da atividade canavieira, aposta o prefeito.


