Sobrevivente reclama de descaso
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de dezembro de 1996
Ronaldo Soares<br>Agência Estado 
RIO - O guardador de carros Wagner dos Santos, sobrevivente e uma das principais testemunhas da chacina da Candelária, deixou segunda-feira o Brasil e voltou para a Suíça, onde mora há um ano. Ele permaneceria no País até a próxima segunda, quando três acusados de participação no crime - o tenente Marcelo Cortes, o PM Cláudio Luiz dos Santos e o serralheiro Jurandir França - vão a júri, mas decidiu antecipar seu retorno por se sentir desprestigiado pela Justiça.
Wagner veio ao Brasil para acompanhar o julgamento do ex-PM Nelson Cunha, condenado a 261 anos de prisão na semana passada. Ele voltou a apontar o tenente Cortes como um dos chacinadores e o ex-PM Carlos Liaffa - que não chegou a ser indiciado - como autor do disparo que o atingiu na cabeça. No entanto, no julgamento acabou prevalecendo a versão de Cunha, que assumiu a autoria do tiro contra Wagner.
O retorno de Wagner à Suíça só foi comunicado ao ministro da Justiça, Nélson Jobim. O Ministério é o responsável pela guarda da testemunha no Brasil. O descontentamento de Wagner ficou expresso numa carta que ele encaminhou ao juiz José Geraldo Antônio, do 2º Tribunal do Júri, antes de deixar o País. Hoje em dia, vejo um grande descaso em relação a minha palavra, prevalecendo a de outros, afirma Wagner no texto. É muito difícil procurar a verdade, principalmente pela condição que represento, lamentou.
Na carta, Wagner diz ainda que gostaria de viver livre em seu País. Mas como ficar se minha palavra não foi reconhecida?, questiona. Em outra carta, encaminhada à imprensa, Wagner dos Santos diz que toda testemunha tem que ser protegida e não se sentir sem liberdade. Ele encerra a carta dizendo que sem testemunha não há processo, sem testemunha não se faz Justiça.
A partir de amanhã, o Centro Brasileiro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CBDDCA) vai mover uma campanha em desagravo a Wagner dos Santos. A entidade vai espalhar 20 out door pela cidade com as frases Ser testemunha no Brasil é perder a liberdade, Valorizar a testemunha é combater a impunidade. As mensagens estão ao lado de uma foto de Wagner.
Para a advogada Cristina Leonardo, coordenadora do CBDDCA e organizadora da campanha, Wagner dos Santos foi descartado. A advogada fez duras críticas ao Ministério Público. Se eles achavam que o Wagner não era fundamental, que não o arrolassem no processo, disse.


