Sobrevida ao câncer será cada vez maior
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de março de 2006
Adriana Dias Lopes<br>Agência Estado 
São Paulo- Até hoje, o oncologista brasileiro Paulo Hoff, de 37 anos, trabalhou mais tempo nos Estados Unidos do que em seu próprio País. O primeiro passo fora daqui foi dado em 1990, quando partiu de Brasília para a Universidade de Miami, onde fez residência. Logo depois, foi parar no M.D. Anderson, no Texas, o maior centro de câncer do planeta - são 600 leitos dedicados exclusivamente para casos de câncer e 4 mil pacientes atendidos por dia.
Lá, o sucesso foi meteórico. Em apenas sete anos, Hoff começou fazendo pós-residência, passou a professor-assistente e se transformou em vice-chefe do Departamento de Oncologia Gastrointestinal. Toda essa experiência ainda inclui mais de 80 trabalhos publicados em revistas internacionais especializadas.
Pois Hoff acaba de voltar ao Brasil. Desde fevereiro, ele ocupa o lugar de diretor-executivo do setor de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, um dos maiores centros de referência no assunto do Brasil. As razões da mudança vão além das profissionais. ''Sou casado com uma brasileira, sentimos muita falta do contato familiar. Sei que se esperasse mais tempo, seria tarde demais para voltar'', diz ele, referindo-se à dificuldade de convencer os três filhos de virem para o Brasil. ''A mais velha, de 11 anos, teve de ser 'subornada' com um cachorrinho para topar vir.''
A seguir, o médico, que se diz otimista, dá um panorama sobre um dos tipos de câncer mais agressivos, para o qual tem dedicado a maior parte do tempo da sua carreira, o câncer de colorretal.
Quais são as novidades no tratamento do câncer de colorretal?
Paulo Hoff - Ando muito otimista. Hoje, 50 drogas estão sendo investigadas, todas exclusivamente para esse câncer. Claro que só a minoria vai entrar no mercado - sabe-se que, de cada 13 drogas que entram em estudo clínico, apenas uma é aprovada. Mesmo assim, o número nunca foi tão bom. Mas não é só a quantidade de remédios que me deixa otimista. Até pouco tempo, a novidade na medicina eram as drogas com capacidade de atingir só as células com o tumor, preservando as sadias. Agora, os medicamentos passaram a conseguir agir antes ainda, detonando os vasos que alimentam essas células doentes.
É o caso da bevacizumabe, certo?
Hoff - Sim. Esse remédio faz com que as células doentes morram de fome. Essa foi a primeira droga com tal capacidade. E fico muito feliz porque foi justamente criada para o câncer de colo retal. O bevacizumabe (com o nome comercial de Avastin) é usado como terapia padrão nos Estados Unidos (no Brasil está em processo de avaliação no Ministério da Saúde). Logo muitas outras drogas vão chegar com a mesma capacidade. É claro que elas não curam o câncer. Mas fazem com que a sobrevida do paciente seja cada vez maior e com qualidade.
Hoje, as drogas garantem quanto tempo de vida ao paciente com o diagnóstico de estágio avançado da doença?
Hoff- Estamos a caminho da média de três anos de vida com qualidade. Isso significa que tem gente que vai viver cinco anos em boas condições. Hoje, é comum nos Estados Unidos não se falar mais em cura do câncer. Mas, sim, em investir na qualidade de vida do paciente. O que acontece com o diabético ou com o hipertenso? Não existe cura para essas duas doenças, mas drogas que garantem a qualidade de vida durante um tempo maior.


