Sob olhares de condenação
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Angélica Santa Cruz<br>Agência Estado 
Além de driblar dificuldades cotidianas, como não caber em assentos ou não passar por catracas de ônibus, os gordos convivem com olhares que vão da ironia à condenação. As estatísticas, no entanto, mostram que o País trata mal uma parcela cada vez maior de sua população. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informa que o Brasil tem 38,6 milhões de pessoas acima do peso recomendado, o que equivale a 40,6% da população adulta. Dentre eles, 10,5 milhões são obesos. E 2 milhões de brasileiros estão na categoria da obesidade mórbida - ou com mais de 40 quilos acima do peso ideal. Em 1975, o percentual de homens acima do peso era de 18,6% . O de mulheres, 28,6%.
Como mostram os quadros renascentistas, a definição de gordura vai se ajustando ao padrão de beleza de cada época. Houve também períodos em que uma cintura roliça era sinal de prosperidade - um ciclo que deu origem a expressões como ''gordo como um major'', ainda muita usada no interior do Nordeste. Hoje a medicina avança na comprovação de que excesso de gordura pode transformar um organismo em uma usina de doenças.
São constatações tão taxativas que é difícil encontrar um gordinho que não queira emagrecer -e as operações de redução de estômago não param de aumentar. ''Mas o que emagrece é a qualidade de vida, a consciência de cidadania, a mudança de cabeça. Quando o obeso se fixa apenas no peso, não emagrece. Ou emagrece e recupera tudo depois'', explica Anete Hannud Abdo, endocrinologista do Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
Boa parte dos adeptos da atitude fat não defende a obesidade - um termo, aliás, considerado pejorativo por eles. O que os gordinhos assumidos querem é a garantia de que sua beleza será reconhecida e seus direitos respeitados. ''Não existe gordo que vai dizer: nasci de bem com a vida. Passamos por dificuldades diárias. Mas hoje acredito que também é uma questão de atitude. Aprendi a não sair por aí pedindo desculpas por ser gorda. E minha vida melhorou'', afirma a webdesigner Denise Neumman, criadora do site Magnus Corpus, o que há de mais parecido no Brasil com a militância aguerrida dos gordinhos norte-americanos.
Definido em sua página inicial como ''a voz dos gordos na internet'', o Magnus mostra reportagens publicadas pelo mundo afora - e muito da experiência de sua criadora. ''Todo santo dia passo por discriminações. Quando tive a minha filha, todo mundo achou que a obesidade ia atrapalhar. Não tive problemas com isso.''


