Só vi um jato dágua vindo em cima da gente
Alvorada do Sul - Valdecir Segundo Fernandes Freitas cultiva soja em uma propriedade próxima a Alvorada do Sul. Tem barco e não dispensa uma boa pescaria, mas a viagem ao pantanal sul-mato-grossense foi a primeira que fez. Diz que estava na área de lazer do barco Sonho do Pantanal, no piso superior, com mais dois colegas o conterrâneo Márcio Gameiro e o londrinense Kesley Roger Souza, que também sobreviveram ao naufrágio , quando viu o tempo mudar e a embarcação ceder ao tornado. "Foi uma coisa muito rápida, não deu tempo de nada. É coisa de segundo. Estávamos nós três conversando, mas nem deu tempo de falar que o barco ia afundar. Só vi um jato dágua vindo em cima da gente", conta.
Ele foi sugado para o fundo do rio e fez um esforço enorme para voltar à superfície. Uma peça do barco batia em suas costas, o prensando para baixo. "Enquanto não parou de bater aquele troço nas minhas costas não parei de nadar. A água era muito suja, não dava pra ver nada. Mergulhei bastante até sair da área de alcance", conta. Quando estava a uns 15 metros já distante da embarcação, o agricultou avistou um bote onde já estavam Márcio Gameiro e Kesley Souza.
Ele chegou a subir, mas desistiu quando viu que a maré era forte demais e podia virar o pequeno barco também. Voltou para a água. "Como a correnteza estava muito forte, me distanciei uns 300 metros do barco-hotel, e nadei procurando o barranco. Teve uma hora que cansei, virei de costas, boei, descansei e falei: vamos de novo."
A uns 50 metros da margem do rio o agricultor foi resgatado em um bote por um índio de uma comunidade ribeirinha. Foi quando viu a extensão da tragédia. "Passa muita coisa na cabeça. Na hora que eu consegui ficar de pé no bote e olhei pra trás vi muita gente afundando e pedindo socorro", conta. A morte nunca lhe pareceu tão viva. "A hora em que eu estava no fundo do rio eu pensei que ia morrer", confessa. E aqui cabe um parêntese. Valdecir afirma que se tudo isso ocorresse há dois anos e meio não teria sobrevivido ao naufrágio.
"Depois que descobri que tenho diabete tenho feito muito exercício, faço caminhada de manhã, jogo bola três vezes por semana com a molecada. Há dois anos e meio pesava 100 quilos, hoje tenho 80. Se eu não tenho o físico mais ou menos não tinha saído com vida não. Nadar 300 metros na correnteza, só por Deus mesmo", diz. Por saber nadar, Valdecir conta que ao perceber que o tempo estava fechando chegou a alertar os amigos para que vestissem o colete salva-vida. "Eles falavam que o barco já estava encostando e que não ia dar nada. Só que eu dou graças a Deus por não estar de colete, porque o colete te faz flutuar e te joga pro teto. Com ele, eu não teria conseguido nadar pra longe do barco", afirma. (D.P.)





