Brasília, 3 (AE) - Um crescimento da economia acima do patamar de 4% ao ano embute riscos inflacionários que só podem ser eliminados com o aumento da produtividade. A opinião foi expressada pelo diretor de Política Econômica do Banco Central, Sergio Werlang, em entrevista à AGÊNCIA ESTADO. Em função disso, o diretor do BC acha que o aumento da atividade econômica acima de 4% ao ano só ocorrerá no momento em que for verificado um crescimento prévio da produtividade. "Com isso, o crescimento da economia poderá ser mais alto sem pressões inflacionárias", disse.
Indagado se este percentual é pequeno para a economia brasileira, o diretor do BC ressaltou que é necessário ter, neste questão, uma visão de mais longo prazo.
"Se a economia crescesse 4% em um ano e depois não, seria pouco. Mas, crescer 4% durante muito tempo é um crescimento muito bom", afirmou, lembrando que a economia brasileira não tem a mesma elasticidade das de países asiáticos como a Coréia do Sul, a Tailândia e a Indonésia. "Essas economias são um ioiô, muito flexíveis", disse.
Apesar disso, ele acredita que a economia voltará a trabalhar num ritmo de 4% de crescimento anual "rapidamente". Para 1999, o diretor do BC acredita que a economia terá um crescimento positivo. "Nas nossas contas, teremos um crescimento positivo no ano. 0,5% é um bom número. Agora, se é 0 5%, 0,2% ou 0,7% ao ano? Isso embute uma margem de erro muito grande", disse.
Apesar disso, o diretor comentou que há sinais de um desaquecimento da economia em julho. "Nossa projeção indica que a atividade econômica vinha crescendo muito, mas em julho estava crescendo um pouco mais lentamente", afirmou.
Mesmo com estas informações, o diretor acredita que será perfeitamente possível cumprir a meta de fechar o ano com uma inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor - Ampliado (IPCA) de 8%. "A meta de 8% da inflação é factível", disse.
Ele também ressaltou que não foi necessário modificar a projeção de inflação medida pelo IPCA contida no relatório de inflação do BC. "A nossa projeção no relatório de inflação é de 8,3% pelo IPCA e não mudou", disse.
Werlang entende que o aumento da inflação provocado pelo reajustes dos combustíveis se restringirá a um único mês e não se propagará para outros meses. "O que na verdade observamos é que de fato foi só devido ao aumento da gasolina, essencialmente. E que não está tendo repasse disso", disse.
Dicotomia - O diretor disse discorda da visão de alguns analistas de que há dentro do governo uma divisão entre desenvolvimentistas e fiscalistas. "Não vejo isto. Não há dicotomia", afirmou. De acordo com Werlang, o desenvolvimentismo do governo Fernando Henrique Cardoso está contido dentro do Plano Plurianual apresentado nesta semana.
"O desenvolvimentisto do governo Fernando Henrique está contido no PPA. E é perfeito. O PPA cabe dentro do orçamento perfeitamente. É crescimento com austeridade fiscal. Dado isso, não há divergência nenhuma", afirmou. Ele ainda lembrou que o PPA é um programa de intevenção na economia e de política industrial ditado pelo governo.
Sobre os estudos realizados pelo BC para avaliar as razões da diferença entre a taxa de juros básicos da economia e as cobradas nos empréstimos bancários, o diretor comentou que o resultado final deverá ser conhecido em aproximadamente 15 dias.
Sem querer adiantar maiores detalhes do estudo, ele comentou que há uma idéia de que as taxas dos bancos sejam divulgadas diariamente na Internet e ainda informada aos maiores jornais do país. A intenção é que o consumidor, com isso, venha a ter um poder maior de comparação dos juros praticados pelos bancos.
O diretor também não descartou a hipótese de que os bancos sejam obrigados a afixar em suas agências o valor dos juros cobrados em suas operações de empréstimo.
FMI - Sobre a postura do Fundo Monetário Internacional (FMI) em relação à proposta do governo do Equador de rever as condições de pagamento de sua dívida externa, o diretor reagiu com naturalidade. "Todo mundo sabia que isso ia acontecer, que eles não tinham condições pagar", disse. O Fundo, segundo Werlang, tem que agir nesta hora para garantir as condições de solvibilidade da economia do país.
"O exemplo clássico disso são as reparações de guerra dos alemães depois da I Guerra Mundial. Eles exigiam algo tão impressionante que acabou com o país e deu no que deu: a hiperinflação e deu no Hitler", disse.

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