Só fica quem for herdeiro de Balbina
A família grande de João Maria e Osvaldo quase transforma a comunidade em Quilombo dos Soares. Ana Maria, no entanto, explica, defendendo o seu "Santos", que outros sobrenomes também são comuns ali por se tratar da linhagem dos onze escravos que herdaram as terras de Balbina Francisca de Siqueira, em 1860. "Temos Heleodoro, Esídio, Eduardo, Santos, Soares. Dos onze, apenas cinco escravos tiveram filhos. Os tetranetos hoje são os herdeiros de Balbina", lista.
Em meio aos quilombolas que ocupam os barracos, é possível notar alguns moradores de pele bem clara e de olhos azuis. Em alguns casos, a miscigenação é visível. O tempo conseguiu romper a barreira existente entre a minoria negra e os descendentes de europeus que colonizaram a região. Mas nem todos que estão lá têm parentesco com os beneficiados pelo testamento; resultado de amizades do tempo em que os quilombolas se abrigavam em acampamentos sem-terra. De acordo com o Incra, para que as terras sejam demarcadas, "será necessária a desintrusão dos ocupantes não quilombolas".
"Para poderem ficar na terra, todos vão ter que provar por meio de documentos a relação de parentesco com os cinco escravos. Só fica quem for herdeiro de Balbina", assegura Ana Maria. "É triste, né, mas o que podemos fazer? Tomara que logo eles consigam um pedaço de chão para eles também", torce João Soares, de 77 anos. (C.F.)





