Foz do Iguaçu, PR, 26 (AE) - Nem mesmo o anúncio da reintegração de posse concedida pela Justiça do Paraguai aos agricultores brasileiros que tiveram suas terras invadidas na localidade de Porto Índio, a 120 quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu, amenizou o clima de tensão gerado pelas declarações de um pretenso líder dos sem-terra. O paraguaio Cornélio Viana, 38 anos, manifestou o ódio dos sem-terra paraguaios contra os brasiguaios que possuem propriedades na localidade.
Viana, que disse ser neto de brasileiro, comprovou a xenofobia dissimulada e a perseguição que os colonos brasileiros vinham denunciando há quatro meses. "Se o Brasil fosse menor e não houvesse o risco de intervenção militar, eu mesmo comandaria um massacre coletivo dessa raça de traidores", esbravejou. As declarações foram feitas em frente à barreira que durante cinco dias manteve sitiadas vinte famílias de brasiguaios que ainda resistem às investidas dos sem-terra.
Outras 40 famílias foram forçadas a sair de suas propriedades sob ameaças de morte. Os invasores ocuparam as propriedades e destruíram as plantações. A Justiça paraguaia deu hoje prazo de oito dias para que os camponeses desocupem pacificamente as propriedades. A reintegração de posse foi anunciada pelo Instituto de Bem-Estar Rural (IBR - equivalente ao Incra), que prometeu fazer um censo para apurar o número de imigrantes brasileiros que vivem na região do conflito.
Caso as propriedades não sejam desocupadas até o prazo determinado, a Justiça poderá recorrer ao uso de força policial para retirar os sem-terra. Também por orientação da Justiça, eles desobstruíram hoje de manhã a estrada que dá acesso às propriedades dos brasiguaios que ficaram isolados por cinco dias. O bloqueio ocorreu poucas horas depois da morte a tiros do sem-terra Jorge Estigarríbia, ocorrida na sexta-feira.
O corpo dele foi encontrado no dia seguinte, no barraco que havia erguido na propriedade que invadiu. Os sem-terra dizem que o crime foi cometido pelos brasiguaios. Estes se defendem e acusam os sem-terra de terem matado Estigarríbia por motivos alheios à questão agrária e de estarem usando o cadáver para incriminá-los. Esta foi a segunda morte de camponeses em quatro meses. A primeira, em 27 de abril, desencadeou uma onda que terminou com a invasão de 40 das 62 propriedades de brasileiros na região.
Os sem-terra não admitem reconhecer o título de posse das terras compradas por brasiguaios há 30 anos, vendidas pelo governo do ex-ditador Alfredo Stroessner (1954-89) a cerca de US$ 7,00. Esse tipo de incentivo - terras férteis e baratas - foi o argumento do regime stroessnerista para atrair milhares de agricultores brasileiros no início da década de 70 para colonizar as fronteiras orientais do Paraguai. Mesmo sob protesto dos sem-terra, o IBR já reconheceu a legitimidade da escritura de 15 propriedades invadidas e está analisando as outras.

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