Jacarta, 08 (AE) - É uma apuração mais lenta do que os lagartos pré-históricos da ilha de Komodo - vizinha à ilha de Flores, colonizada pelos portugueses. Mesmo assim, hoje à noite, com apenas pouco mais de 1% dos votos apurados, já era possível estabelecer para onde sopram os ventos na primeira eleição democrática na Indonésia em 44 anos.
A coalizão entre o PDI-P, da filha de Sukarno, Megawati, e o PKB do líder islâmico tradicionalista-moderado Gus Dur tinha cerca de 790 mil votos. O Golkar, o partido do sistema Suharto, tinha apenas 230 mil votos. E todos os principais partidos fora a coalizão - Golkar, o islâmico PPP e o PAN de Amien Rais - tinham cerca de 520 mil votos.
Este quadro já permitia duas conclusões importantes: 1) A coalizão Megawati-Gus Dur está conseguindo mais de 50% dos votos. 2) A coalizão Megawati-Gus Dur está conseguindo mais do que o triplo dos votos do Golkar; e se acrescida do PAN de Amien Rais, quase o quádruplo.
O Golkar ainda não admite derrota: mas alguns membros já se arriscam a definir seu futuro como uma "oposição democrática" (sic).
Fraude, pelo menos por enquanto, existe em pequena escala. De acordo com John Gwyn Morgan, observador-chefe da União Européia, "93% dos votos são OK, e apenas 7% dúbios" - o que é excelente tendo em vista recentes previsões apocalípticas. Observadores das Filipinas - que já passaram por esse processo, pós-Marcos - prezam, entusiasmados, a "sensação de fortalecimento das pessoas". Mesmo os indicadores econômicos são otimistas: hoje, a Bolsa de Jacarta atingiu seu maior índice dos últimos 22 meses.
Como frisa a cientista política Mari Pangestu - um dos melhores cérebros da nação e provável ministro em um governo Megawati - "ainda é muito cedo, embora a expectativa seja de que finalmente haverá uma mudança". Dewi Fortuna Anwar, porta-voz do presidente Habibie, insiste que Java - onde foi apurada a maior parte dos votos - não reflete a Indonésia (Java é um mega-território Megawati). Mas tudo indica que já se configura o que a consultoria de risco Van Zorge, baseada em Jacarta, define em seu último relatório como um "cenário ideal" - onde o partido do sistema tem menos de 20% dos votos (na era Suharto, o Golkar "vencia" toda eleição com mais de 70%).
Os robôs da CNN descrevem Megawati como uma "populista democrática". Trata-se de uma bobagem reducionista. O que está em jogo nestas eleições é uma confrontação entre o que os indonésios chamam de secular-nacionalistas (o PDI-P de Megawati e o PKB de Gus Dur), e uma aliança islâmica com tendência sectária (o Golkar e o PPP, cujo símbolo é uma bandeira verde com uma Kaaba ao centro). No meio dos dois, inclinando-se como uma palmeira ao vento, está o PAN de Amien Rais - que apela aos muçulmanos modernistas. Não por acaso, estes são os cinco partidos mais votados até o momento (pela ordem, lidera o PDI-P, seguido por PKB, Golkar, PAN e PPP).
A consultoria Van Zorge, analisando os cenários futuros, traça uma regra dos 25%: qualquer votação do Golkar acima deste nível provocaria um tumulto social. Tudo indica que o Golkar terá no máximo cerca de 15% ,e na mais otimista das hipóteses, 20%. Depois, é claro, há as infinitas combinações de coalizão no colégio eleitoral e táticas variadas de compra de votos.
Membros do partido tentam ser otimistas - mas até nos distritos eleitorais de Suharto e Habibie o Golkar foi trucidado pelo PDI-P. No oeste de Java, onde está o maior número de cadeiras no Parlamento - 82 - o Golkar diz que está empatado, mas o PDI-P desmente, baseado em uma extensa rede de observadores equipados com celulares, doados por um magnata de Jacarta.
O futuro imediato reserva três possibilidades: 1) A aliança Megawati-Gus Dur consegue mais de 50% dos votos - como indicam os primeiros resultados. Mas com um sistema eleitoral extremamente tortuoso, a aliança precisa de pelo menos 60% para assegurar a presidência - o que parece possível. Resultado: um governo estável e legítimo, com Megawati na presidência, provocando confiança renovada de investidores nacionais e globais.
2) Um candidato de compromisso - talvez o sultão de Yogyakarta: cenário cada vez mais improvável.
3) O Golkar consegue entre 15% e 20% dos votos - o que é possível - e através de alianças com os partidos islâmicos, politicagem, e sua fabulosa "caixinha" de no mínimo US$ 40 milhões para compra de votos, obtém uma maioria no colégio eleitoral até com 42% dos votos do total.
Habibie é eleito presidente. Resultado inevitável: explosão vulcânica de uma opinião pública já embalada pelos ventos da mudança, volta do movimento estudantil, pressões violentas para ejetar Habibie.
A Indonésia já está atolada de problemas, para ainda ser "premiada" com uma aliança islâmica. As chamadas minorias religiosas na Indonésia são ruidosas, influentes, têm uma tendência secessionista, e não vivem na ilha hegemônica, Java, mas às margens do mega-arquipélago. Uma aliança islâmica no poder, incluindo o Golkar, provocaria uma tensão insuportável em áreas sensíveis e estratégicas como Aceh, Irian Jaya, Timor Leste, as Molucas, o norte de Sulawesi e mesmo Bali. Os chineses-indonésios jamais retornariam os US$ 80 bilhões em capital de investimento que estacionaram fora do país - o que seria um desastre: afinal, eram responsáveis por 70% da economia.
Para completar, haveria problemas com os militares. Todos os principais oficiais das Forças Armadas estão alinhados com os seculares-nacionalistas.
Megawati e o PDI-P têm ótimo contato com a ABRI. A partir de agora, devem se multiplicar as críticas a Megawati. A ladainha já é conhecida. Ela não é necessariamente o que querem os investidores globais. É alienada, não tem capacidade intelectual para dirigir uma nação tão complexa, só vive do nome do pai, e sua plataforma de governo é vaga.
Kwik Kian Gie, o guru economico do PDI-P, já ligou o turbo para explicar a indonésios e estrangeiros que a cooperação com o FMI continua, assim como o programa de recuperação economica do país. Em termos de política economica, o PDI-P está deixando claro que vai escolher os melhores cérebros do país e ministros amplamente pró-business - independente de suas filiações políticas. Caso isso se confirme, a Indonésia certamente estará a caminho da recuperação econômica no ano 2000.
É verdade que Megawati não se expõe à mídia nacional e internacional. É também verdade que basta conversar com qualquer pessoa para se perceber que ela é a figura política mais importante da Indonésia neste momento. Seu inglês é fraco - daí sua relutância em dar entrevistas para a mídia internacional. Quando lemos suas entrevistas traduzidas do indonésio, notamos que são muito mais articuladas.
Megawati foi a única candidata que viajou por todo o arquipélago. Foi até mesmo a Timor Leste. Habibie, em um ano de governo, não pôs os pés em Timor. Megawati é a preferência popular - do povo que não lê jornal ou revista. Mas todos entendem sua filosofia política. E esta filosofia é o secular-nacionalismo.
Amien Rais, um intelectual muçulmano modernista, acha que nacionalismo é um mito. Mas o relatório Van Zorge nota com insistência, e com razão, que o nacionalismo "é provavelmente a mais importante tradição política na breve história da Indonésia como república independente". Pode-se arguir que toda a tensão nas ilhas fora de Java foi provocada acima de tudo por repressão militar, corrupção do governo Suharto e políticas desastradas do centro em Jacarta. Megawati dispõe-se a reverter todas estas políticas.
Pode-se portanto arguir que sob uma Megawati presidente, boa parte da frustração em Timor Leste e Irian Jaya poderia ser eliminada.
Se todas estas previsões se confirmam, a estrada será longa e tortuosa para a filha do pai da pátria Sukarno. Mas, em essência
tudo se resume a este comentário de um businessman em Jacarta: "Não precisamos de um cientista construtor de foguetes como presidente. Afinal, esse é o perfil de Habibie. E veja só onde isso nos levou".

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