Sistema Maluco
Acabou a caçada, está preso Elias Maluco, o presidente do Tribunal do Tráfico que capturou, julgou e condenou à morte o jornalista Tim Lopes, no Rio de Janeiro. Hora de tirar lições da tragédia:
1- A Universidade do Texas promoveu um interessante bate-papo pela Internet entre jornalistas brasileiros para se discutir limites e riscos do hoje indispensável jornalismo investigativo. Consenso: ele está tendo que se meter em certos buracos pela ausência do Estado. Na redação de um grande jornal do Rio, os repórteres têm à disposição um colete à prova de balas. Constrangedor.
2- Quando a Polícia quer, funciona. Arranjou um bom informante, recompensou-o de alguma forma (esses assuntos são secretos) e pegou o bandido com data e hora marcadas. Sim, Maluco já estava na mão quando foi feito o cerco que somente a própria Polícia fotografou. Que bom seria se fosse sempre assim. Ver aquele monte de esqueletos no alto do morro, revirados para se encontrar alguma parte de Tim que permitisse um exame de DNA para a verdade que ninguém gostaria de ouvir, foi macabro e cruel. Porém, extremamente real. Um vale de ossos, fora dos tempos do relato do bíblico livro de Ezequiel. A Polícia não é do Governo. É da população. Quem sabe, algum dia, ela possa ser movida pelo profissionalismo institucional e não pelo farfalhar causado pela espuma dos casos de impacto. A prisão de Elias Maluco mostra que quando se trabalha para valer a coisa sempre funciona. Por que tantos outros foragidos nunca são localizados? Temos mais condenados nas ruas do sentenciados recolhidos.
3- Quando a porta está arrombada, coloca-se a tranca. Elias Maluco e Fernandinho são companheiros de prisão no Batalhão de Choque da Polícia Militar. Acabou a moleza: quando voltarem a Bangu I, terão celas monitoradas, parlatório com vidros divisórias e restrições a contatos. Ótimo. Mas não se poderia ter feito tudo isso bem antes? Também trocou-se a administração do presídio: sai a Secretaria da Justiça, entra a Polícia Militar. Curioso: para isso, a PM do Rio parece ser ótima. Na busca a Elias, mostrou-se péssima. Polícia tomar conta de preso é falência do sistema penitenciário, porque torna visível a incompetência e a corrupção e vazias as teorias.
4- Há muitos culpados e poucos inocentes nessa história. Por que, na 31 Vara Criminal, quatro anos se passaram e não houve sentença num processo de sequestro, o que permitiu a abertura de uma válvula jurídica para o bandido-traficante ser solto?
5- Os colegas da Comissão Tim Lopes, do Sindicato dos Jornalistas, manifestaram-se com equilíbrio: ''A prisão não nos alivia, afinal nada trará de volta nosso companheiro''. Os fatos aí estão. Se deixarmos as coisas como estão, diremos que não apenas Elias é o maluco. O sistema inteiro, também. A sociedade precisa olhar-se no espelho. E não apenas trocá-lo, se não gostar do que vê.





