São Paulo, 29 (AE) - O sistema de metas de inflação que passa a orientar a política monetária brasileira impõe um grande desafio ao Banco Central: prever "choques" de oferta domésticos ou externos que possam tirar a inflação do limite estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
O desafio deve ser encarado, porque essa política exige do BC ações preventivas, que permitam conduzir a política monetária com o objetivo prioritário de neutralizar futuros impactos inflacionários. A necessidade de prever os "choques" decorre da defasagem que se observa entre as intervenções do BC no mercado monetário e seus efeitos reais.
O desafio é respeitável, dada a dificuldade em se determinar o tempo que será necessário entre as mudanças na taxa de juros e seus efeitos sobre a inflação; pelo inadequado conhecimento de como a economia se comporta e a deficiência nas informações.
Ao ser conduzida com base em expectativas, a adoção de metas inflacionárias pode determinar mudanças fundamentais na atuação do BC. Mas a mudança não deve ser considerada líquida e certa, especialmente se, mesmo sem a adoção das metas inflacionárias, o BC já se movimenta tendo por objetivo a estabilidade de preços no longo prazo.
Neste caso, a política de metas inflacionárias apenas formaliza uma situação existente, com pouco ou nenhum impacto na maneira como os instrumentos monetários são ajustados a informações sobre a economia.
A política de metas de inflação caracteriza-se pela definição de um valor numérico para a inflação desejada, que servirá de guia para a adoção da política monetária, num contexto em que o BC tem como objetivo primário alcançar a estabilidade dos preços no longo prazo. A estabilidade de preços é conceito relativo, varia de país para país e não deve ser confundida com inflação zero ou deflação.
A estabilidade pode ser vista como um nível desejado de inflação, ao qual se associa um intervalo de variação aceitável. O governo e o banco central devem estabelecer a suposta trajetória ótima da taxa de inflação, ou nível ótimo de longo prazo do índice de preços.
A escolha deve deixar a política monetária flexível para amortecer as flutuações de curto prazo no produto e no emprego, sem pôr em risco o objetivo de baixa inflação no longo prazo. A adoção de metas inflacionárias para orientar a política monetária tem resultado em diversas consequências de utilização de uma das duas políticas - metas inflacionárias e política monetária.
Grande parte dos bancos centrais tem experimentado conduzir a política monetária servindo-se de metas intermediárias. Entre elas: variação de agregados (base monetária, meios de pagamentos); variação da taxa nominal de câmbio; variação do produto nominal.
Na ausência das metas de longo prazo, a atuação centra-se nas taxas de juros nominais de curtíssimo prazo, política esta mais sensível a choques de curto prazo, que poderia desenvolver uma tendência inflacionária.
Considerando as consequências perversas da inflação, os bancos centrais têm optado pela política de metas inflacionárias
ainda que não de forma explícita (caso do Federal Reserve, que não fixa meta de inflação, mas condiciona a política monetária a esse objetivo). Pelo fato de a estabilidade de preços ser o objetivo básico da política monetária, a transparência assegurada pela política de metas de inflação tem a virtude de transmitir ao público o que o BC deseja alcançar.

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