Sistema de metas de inflação é "fantasia", diz Furtado
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terça-feira, 07 de setembro de 1999
Por Maria Fernanda Delmas 
Rio, 8 (AE) - O sistema de metas de inflação, adotado a partir deste ano pelo Ministério da Fazenda e o Banco Central, é uma "fantasia", segundo o economista e ex-ministro do Planejamento Celso Furtado. "Na verdade, o governo não está programando uma inflação, mas a recessão necessária para conter as pressões inflacionárias, em vez de planejar o crescimento", criticou Furtado, no seminário "Desenvolvimento: o Fato e o Mito", hoje na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
"Acho que tem de ter inflação", afirmou Furtado, ao comentar as condições necessárias para o desenvolvimento econômico. "O governo de Fernando Henrique Cardoso já assumiu, ao determinar a meta para este ano, que a inflação deve ficar em 8%, com margem de dois pontos porcentuais, para cima ou para baixo", lembrou.
Para o ex-ministro, o Plano Plurianual (PPA) apresentado pelo governo no final de agosto" é mais um trabalho de ficção" do que estratégia política. "No plano trienal que fiz para o governo João Goulart, os recursos viriam dos ganhos de produtividade, mas no PPA conta-se com a iniciativa privada", explicou. "E ela já foi consultada?", questionou.
Após sua palestra, o ex-ministro disse também que não acredita no alcance da meta de US$ 100 bilhões em exportações em 2002. "O governo pensava que a mudança cambial resultaria em um boom das exportações, mas o comércio internacional é muito protecionista e o Brasil não tem como entrar na briga."
Segundo Furtado, as políticas protecionistas dos Estados Unidos e os subsídios da Europa ao setor agrícola são antiglobalização. "A globalização é para embalar os ingênuos, como o Brasil, e fazê-los abrir seus mercados", atacou.
O economista declarou que, no meio da crise brasileira, a democracia está em jogo. "As tensões sociais levam a um desejo de mudança profunda do modelo, e espero que seja por um processo democrático, senão haverá um deslize para a direita, para um novo fascismo".
Furtado deu o exemplo da Venezuela, onde o presidente Hugo Chávez, que chegou ao poder por meio do voto, assumiu poderes ditatoriais. "Os estados também podem se revoltar e não pagar as dívidas contraídas pelos antecessores", alertou.
Exportações - O embaixador do Brasil na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero, em vídeo-conferência no seminário, afirmou que o investimento estrangeiro deve ser vinculado ao desenvolvimento de pequenos e médios fornecedores. Segundo ele, os investimentos desta natureza, nos últimos três anos, são voltados basicamente para os setores incapazes de gerar exportações, como telecomunicações e eletricidade.
"Este investimento tem peso sobre a balança de pagamentos, por causa das remessas de lucros e dividendos", alertou Ricúpero. Segundo o embaixador, as remessas saltaram de US$ 700 milhões em 1994 para US$ 7,7 bilhões no ano passado. Ricúpero defendeu também o controle dos fluxos de capitais de curto prazo, inclusive quando eles saem do País, como fez recentemente a Malásia.
BC independente - A economista Maria da Conceição Tavares, palestrante de amanhã no seminário, também declarou ser favorável ao controle de capitais. Para Conceição, outra medida necessária imediata é tirar o programa do Fundo Monetário Internacional (FMI), acabar com as privatizações e voltar a ter um Banco Central independente do mercado e respondendo ao governo. "Há alternativas, desde as conservadoras até as mais populares", disse a economista. "O que não pode é deixar o governo destruir este País", criticou.
Segundo a economista, o Plano Real acabou em 1995, depois da crise mexicana. "José Serra (ministro da Saúde) , Luiz Carlos Mendonça de Barros (ex-ministro das Comunicações) e o falecido Sérgio Motta (ministro das Comunicações) queriam mudar o plano ali, mas agora são os pesos pesados da indústria paulista que vão entrar em cena."
Na opinião de Conceição Tavares, o novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alcides Tápias, representa a burguesia nacional que sobrou, como o Bradesco, o Grupo Camargo Corrêa e o Grupo Votorantim.
"Os industriais de São Paulo estão chateados com a hegemonia de Washington e a política do ministro da Fazenda, Pedro Malan", disse. "A malta que tomou prejuízo com as gracinhas do Gustavo Franco (ex-presidente do Banco Central) botou uma faca na garganta de FHC, criando uma fratura entre a gestão econômica e os interesses nacionais dessa grande burguesia."
Os industriais paulistas querem disputar o que falta das grandes privatizações e também intervir na decisão do governo de dar dinheiro a conglomerados "falidos" de outras regiões, na opinião da economista. Mas, para Conceição Tavares, Tápias não será necessariamente bom para o povo.


