Racismo legalizado ou reparação de um erro histórico? Polêmica, a questão da implantação de cotas para negros na Universidade Estadual de Londrina (UEL) foi discutida, ontem, na Câmara, durante audiência pública. Mais de 200 estudantes, a maioria de escolas particulares e contrários a proposta, lotaram as galerias da Câmara. A discussão também teve participação de representantes de movimentos negros favoráveis a causa. A reserva de 40% das vagas do vestibular da UEL para estudantes de escolas públicas, metade destas para negros, será decidida em julho pelo Conselho Universitário. Segundo o vereador Rubens Canizares (PHS), que organizou a audiência, apesar do evento não ser deliberativo, uma ata será encaminhada aos membros do Conselho para ''subsidiar sua decisão''.
Para a antropóloga e docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Yvonne Maggie, convidada a participar do evento, a implantação de cotas para negros como um ''remédio'' para combater o racismo pode ter o efeito de um ''veneno'' - a legalização do racismo e a criação de ódios raciais. ''Que o Brasil é um país racista não há como negar, mas combater o racismo usando a raça como critério vai afetar brancos e negros. A exclusão no Brasil nunca foi definida legalmente e isso faz diferença, é através da lei que se institui verdades'', avaliou.
Favorável a implantação de cotas para negros, João Lino de Oliveira, membro da Associação Afro-Brasileira (Aabras), afirmou durante a audiência que as cotas não resolvem a situação de desigualdade da comunidade negra no Brasil, mas que a medida é apenas uma das políticas públicas necessárias para corrigir essa situação. ''Não acirra o racismo, mas torna a questão mais evidente, que não somos uma democracia racial, mas um país de profunda desigualdade, e o sistema de cotas é uma maneira de reparar a história'', disse.
Alunos de escolas particulares, no entanto, acreditam que as cotas podem prejudicá-los no vestibular. ''Fica mais difícil (o vestibular), aumenta a concorrência, e a cota é uma medida apenas para 'tampar buraco' que é o ensino público no Brasil'', avaliou o estudante Paulo Victor Lazarini, de 17 anos. Para o presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Londrina, Alderi Ferrarezi, a causa do negro estaria ''sendo usada para tentar resolver o problema do ensino público no Brasil''. ''Melhorar o ensino básico ou aumentar o número de vagas nas universidades exigem recursos, o que não é preciso com a a implantação das cotas. A causa do negro está sendo usada para justificar a reserva de vagas para a rede pública'', afirmou.
Se aprovada, a proposta de reserva de vagas na UEL, segundo o pró-reitor da Coordenadoria de Ensino e Graduação (CAE), Jairo Queiroz Pacheco, é para um período de 10 anos, ''um tempo para que se formem algumas turmas e a política possa ser avaliada''. ''A proposta é contemplar duas parcelas da população excluídas do ensino superior, os de menor renda e os negros''.

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