Apesar de politicamente correta e saudável, a atividade física segue as mesmas regras de prazeres não tão recomendáveis - como o álcool. Quem exagera na dose, pode sofrer a ressaca no próprio corpo. Os atletas profissionais são os mais afetados pelo chamado overtraining (sobrecarga de treino), que pode acarretar uma série de distúrbios. Mas os amadores que se cuidem: afinal, os mais afoitos por emagrecer ou ganhar músculos podem desrespeitar os próprios limites e, como consequência, são obrigados a pendurar as chuteiras por algum tempo.
Quem dorme pouco, se alimenta mal ou vive na correria está mais suscetível ao overtraining. Nessa situação, o corpo não consegue recuperar-se do volume de treino. O ortopedista especializado em medicina do esporte, André Pedrinelli, do Hospital das Clínicas e da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, diz que esse problema foi apelidado de síndrome dos divorciados. ''A pessoa quer emagrecer rápido, então, corta a comida e aumenta a intensidade do treino. Dessa forma, não consegue repor os nutrientes perdidos.''
Quando o quadro já foi estabelecido, ocorrem diversos problemas. ''A pessoa fica irritada e pode haver alteração no apetite e distúrbios do sono. Ela fica sonolenta, mas, na hora de dormir, não consegue'', diz o fisiologista Paulo Zogaib, do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os sintomas não são tão claros. ''O mais comum é o indivíduo nem perceber que há algo errado.'' É por isso que ainda é difícil diagnosticar a síndrome: não há dados precisos sobre a sua ocorrência.
O curioso é a equação da atividade física: quando ela se dá em volume adequado, há o favorecimento dos três hormônios chamados anabólicos - insulina, testosterona e o hormônio de crescimento. Mas na sobrecarga de exercícios, os hormônios catabólicos são estimulados: o glucagon e o cortisol, que pioram a performance e a capacidade para a prática de atividade física. Então, é comum a pessoa aumentar ainda mais a carga de exercícios, piorando o quadro, num círculo vicioso.
Entre o público feminino, ocorre a chamada tríade da mulher atleta, muito comum em maratonistas. Há queda nos níveis de estrógeno e progesterona, causando atraso, diminuição ou até perda da menstruação, a chamada amenorréia. ''Há mudanças de humor e da libido, assim como distúrbios alimentares. É como se a mulher estivesse na menopausa prematuramente'', informa Zogaib. Com isso, pode haver também enfraquecimento ósseo e até osteoporose, o que facilita a ocorrência de fraturas por estresse.
Para avaliar os sintomas negativos do overtraining, a pesquisadora do Centro de Estudos de Fisiologia da Unifesp, Carolina Ackel D'Elia, dirigiu questionários para 413 entrevistados - homens e mulheres, 18 a 35 anos, que treinavam em academias pelo menos quatro vezes por semana.
A investigação incluía o padrão do sono, alimentação, tipo de treinamento, lesões e avaliação psicológica, além da dosagem de alguns hormônios. ''Na média, a prevalência da síndrome é baixa. Mas, quando se considera os resultados individuais, descobre-se que alguns indivíduos estão exagerando'', conclui. ''O curioso é que alguns professores deixam o aluno fazer três ou quatro horas de aulas seguidas.''

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