Síndrome de Jerusalém preocupa autoridades
Jerusalém, 14 (AE-AP) - A Síndrome de Jerusalém ataca sem aviso. Suas vítimas são os peregrinos aparentemente normais que depois de alguns dias na Cidade Santa começam a imaginar que são figuras bíblicas, cantam salmos nas ruas, oram para pedestres ou se vestem a rigor em lençóis de hotel.
Hoje (14), clérigos e autoridades de Jerusalém reuniram-se para discutir maneiras de lidar com a enfermidade mental que os psiquiatras garantem atinge um em cada 100 peregrinos e pode atrapalhar as celebrações do aniversário de 2.000 anos de Jesus Cristo.
"Há a preoupação de que isso possa transformar uma celebração nacional em um pesadelo nacional", disse Clarence Wagner, diretor do Pontes para a Paz, um grupo que defende uma aproximação entre grupos cristãos e israelenses e que patrocinou a discussão de hoje.
Tentando acalmar os ânimos, monsenhor Richard Mathes, o adido cultural do Vaticano em Israel, disse que em seus 20 anos no Estado judeu, ele havia entrado em contato com apenas dois católicos que sofriam da síndrome.
Entretanto, o próprio Mathes concordou que os protestantes são mais vulneráveis, aparentemente porque suas convicções são menos estruturadas que as dos católicos.
O comissário de saúde mental de Jerusalém, Dr. Yair Barel, o primeiro especialista a diagnosticar a Síndrome de Jerusalém, afirmou que aproximadamente 40.000 dos chamados peregrinos do milênio poderiam sofrer de ilusões religiosas.
Desses, entre 600 e 800 podem precisar ser hospitalizados e alguns podem realizar atos desesperados como parte de suas visões, disse Barel. "O perigo é que alguém tente fazer algo muito violento", afirmou, antes de acrescentar: "As autoridades apropriadas estão pensando nisto e estão prevendo isto".
Autoridades israelenses tiveram um exemplo do extremismo religioso ligado ao novo milênio quando uma seita baseada em Denver (EUA), os Cristãos Preocupados, mudou-se para Israel há vários meses.
A polícia manteve a seita debaixo de vigilância, suspeitando que seus membros pudessem levar a cabo atos violentos perto de locais santos para acelerar o "Apocalipse" e a "Segunda Vinda de Cristo".
Alguns "cristãos preocupados" foram detidos e deportados para os Estados Unidos, mas solicitaram seu retorno a Jerusalém.
Um dos mais recentes pacientes de Barel, um professor escolar de Cincinnati, começou a mostrar sintomas depois de visitar a Igreja do Santo Sepulcro, onde, segundo reza a tradição, Jesus foi enterrado e depois ressuscitou.
Dois dias depois da chegada do americano à cidade, ele começou a lavar seu cabelo em um frenesi desesperado na tentativa de se purificar. Depois, o professor pegou as toalhas do hotel e as transformou em uma grande túnica branca e começou a rezar salmos.
O homem conseguiu se curar depois de alguns tranquilizantes e vários telefonemas para casa, disse Barel.
Na prefeitura de Jerusalém, funcionários lidam com a Síndrome de Jerusalém tão seriamente quanto fazem com o trânsito intenso da cidade ou com a manutenção dos locais sagrados.
Segundo Mathes, uma visita do papa João Paulo II, que poderá acontecer em março do próximo ano, poderia aumentar o número de fanáticos religiosos em Israel.
"Tememos que grupos radicais possam usar esta visita para fazer algo", disse Mathes.





