Brasília, 30 (AE) - O governo abriu sindicância para apurar se houve conluio entre fazendeiros e sem-terra nas ocupações promovidas durante as jornadas estaduais coordenadas pela Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag). A descofiança do ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, surgiu após levantamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) mostrando que de cada 10 áreas invadidas de três a quatro proprietários pediram a reintegração de posse.
"O que temos é uma dúvida, uma suspeita", disse o ministro."Há indícios de anomalia, se alguém tem uma terra invadida e não pede a reintegração é porque a área não é dele ou porque a invasão não aconteceu ou, talvez, porque existe um acordo entre as partes", disse Jungmann.
Um acordo, na opinião do ministro, poderia ser uma forma de "furar a fila" no processo de escolha de terra para assentamentos. Depois das invasões, o governo decidiu que as áreas ocupadas na jornada e excluídas da programação do governo não serão vistoriadas antes de um ano.
"Nós abrimos uma sindicância para averiguar, esclarecer", explicou Jungmann. A sindicância, segundo o ministro, pode indicar a necessidade de abertura de inquérito penal ou "parar por aí mesmo", dependendo das conclusões, que devem sair em 15 ou 20 dias.
Jungmann rebateu as acusações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) de que a desapropriação pelo governo será prejudicada por causa do novo mecanismo de compra direta de áreas financiada pelo Banco da Terra. "Da meta de 85 mil famílias a serem beneficiadas este ano com a reforma agrária, apenas 20 mil serão pelo Banco da Terra", afirmou o ministro.O governo, disse, já tem um estoque de 50% do total de 1,9 milhão de hectares que serão usados este ano na desapropriação. "Este não será diferente do ano passado", assegurou.
Marabá - Jungmann informou que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) vai negociar com os sem-terra em Marabá, Pará, onde cerca de 7 mil agricultores estão acampados em frente à sede do Instituto. As conversas deverão começar em uma semana, após definição do plano de trabalho do ministério.
Quanto à audiência solicitada pelo MST ao presidente Fernando Henrique Cardoso, Jungmann disse que o assunto não está resolvido. "O presidente ainda não disse nem sim nem não." Fernando Henrique pediu ao ministrou que negocie uma mudança no formato da audiência - o movimento quer uma audiência pública com o presidente, considerada inviável por Jungmann- e o estabelecimento de uma pauta de reivindicações precisa. "Depois dessa negociação levo o resultado ao presidente e ele decide."

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