Rio, 10 (AE) - A Corregedoria de Polícia Civil instaurou hoje uma sindicância para apurar as denúncias feitas pela americana Joy Jackson, que cumpriu pena no Brasil por tráfico de drogas. Joy acusou a delegada Márcia Julião, afastada da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) por suspeita de pertencer à banda podre da polícia, de tentativa de extorsão e espancamentos. "Esse seria o primeiro caso de extorsão intermediada por um intérprete", ironizou a delegada. "Eu não falo uma palavra de inglês."
Segundo a corregedoria, a delegada será chamada a depor. A procuradora de Justiça Celma Alves, coordenadora da comissão do Ministério Público Estadual (MPE) que apura as denúncias contra a banda podre da polícia, afirmou hoje que Joy deve mandar suas acusações por escrito. "Como ela não pode voltar ao Brasil, deve enviar a denúncia por escrito, contando tudo com detalhes e identificando testemunhas da tentativa de extorsão", afirmou. "Ela deve esclarecer também porque não relatou os fatos ao juiz na época em que o processo estava tramitando."
Joy Jackson foi deportada para os Estados Unidos no dia 27 de março, depois de ter cumprido no Rio pena de três anos e dois meses por tráfico de drogas. Na semana passada, ela contou que a delegada teria exigido US$ 100 mil para não prendê-la. Segundo Joy, como não dispunha da quantia, foi espancada por Márcia Julião. "Essa mulher representa algum grupo que tem o interesse escuso de acabar em uma semana com uma carreira de dezesseis anos", afirmou a delegada.
Márcia Julião ironizou a acusação de espancamento. "Ela não confessou nada, negou ser traficante, como é que foi torturada na delegacia?", questionou. "Além do mais, esteve diversas vezes na frente de juízes e promotores, por que nunca denunciou nada disso?" Márcia também negou a acusação de tentativa de extorsão. "A prisão dela foi decretada por uma juíza, eu não tenho interferência nisso."
A delegada disse ainda que sua declaração de imposto de renda está disponível para investigações. "Eu pago aluguel, não tenho dinheiro." Joy Jackson foi presa em dezembro de 1997, em Fortaleza, depois de viajar para a Holanda e para Bali, sob a acusação de ter trazido para o Brasil mais de mil comprimidos de ecstasy. A droga fora apreendida por uma equipe da DPCA em um apartamento em Copacabana, na zona sul do Rio, onde três pessoas foram presas em flagrante. "Foram essas pessoas que acusaram ela", contou Márcia.
A apreensão foi a primeira de ecstasy feita na cidade. "Para mim, foi um fato heróico, inédito, que agora se transformou nas gracinhas dessa mulher", disse a delegada. Segundo a delegada, foi uma equipe da DPCA que fez a apreensão, e não da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), porque a droga tinha endereço certo: crianças e adolescentes. "Se não tivéssemos apreendido o ecstasy, vários menores estariam hoje viciados", explicou Márcia. A delegada lembrou que foi ela também, à frente da DPCA, quem prendeu, em dezembro do ano passado, o traficante Ney Sapo, da favela do Jacarezinho.
"Ninguém questionou o fato de eu ter prendido ele; é estranho que agora estejam questionando essa prisão", disse. "Eu não fui para a DPCA para fazer transporte de adolescente, fui para trabalhar, para impedir que os menores sejam aliciados por traficantes."

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