Sindicalista aponta o caminho
São Paulo, 06 (AE) - O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, repetiu durante todo o processo de resistência às demissões na Ford: "vamos dar um nó nesta crise". Por causa dessa determinação, a de trabalhar para melhorar a economia no seu momento de maior depressão, mesmo que isso favorecesse o governo que sempre combateu, ele começou a tomar atitudes estranhas para um líder da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Marinho considerou prematuro o debate sobre indexação de salários por causa do risco de volta da inflação - isso no momento em que o deputado Paulo Paim, de seu partido, o PT, voltou a falar no projeto que tem por objetivo criar mecanismo de proteção do salário mínimo atrelado ao índice de inflação (gatilho). Recebeu bem a nomeação do novo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, apesar de sua ligação com o capital internacional especulativo e de nota oficial da CUT criticando duramente a decisão do governo.
Como se não bastasse, elogiou publicamente a capacidade de tomar decisões do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), quando negociou com ele projetos para tirar o setor automotivo da paradeira. Tudo diferente do discurso oficial da CUT.
O consultor trabalhista Ariovaldo Lunardi notou, durante toda a novela dos demitidos da Ford, uma inversão de papéis. "O sindicato dos trabalhadores acabou fazendo o que os empresários e o governo deveriam ter feito: buscar uma solução macroecômica para o problema da baixa atividade econômica", avalia. Para ele, o recado do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC ao empresariado e ao governo é claro: "Mexam-se".
Segundo Lunardi, as empresas deveriam já ter entendido que, quando enfrentam dificuldades econômicas, o caminho mais fácil - e o menos eficaz - é demitir. O caminho mais trabalhoso é também o que traz mais resultados: buscar soluções de longo prazo. Neste ponto ele concorda integralmente com o professor da USP e pesquisador da Fipe, Hélio Zylberstajn. "A saída, sem dúvida nenhuma, é uma reforma tributária", diz, e pede pressa. "Com os índices de desemprego neste nível e tendendo a explodir este ano, já estamos muito atrasados".
O mérito do sindicalista Marinho foi justamente esse. Ele foi capaz de manter uma mobilização por 30 dias, falando para os empregados de projetos amplos, que passam por redução de impostos para ativar o setor automobilístico: o de escoamento de estoques com redução do IPI e do ICMS e o de renovação da frota, que propõe pagamento de bônus de até R$ 3,4 mil para quem quiser trocar veículos com mais de 15 anos de uso por um novo.
Durante as semanas em que o Brasil balançou por causa do câmbio, da fuga de capitais, da divulgação de altos índices de desemprego, Marinho viajou mais do que qualquer membro do governo em busca de soluções: teve audiências com três governadores, incluindo o de São Paulo, Mário Covas, com dois ministros da área econômica, com o presidente Fernando Henrique, conversou com vários deputados, senadores, com quase todos os sete prefeitos da região do ABC, com número grande de vereadores, muitos empresários e dirigentes de sindicatos patronais e ainda com sindicalistas de todas as centrais sindicais.





