Washington, 15 (AE) - O anúncio de um avanço de 0,7% no Índice de Preços ao Consumidor nos Estados Unidos em abril precipitou uma queda de 193 pontos do índice Dow Jones da Bolsa de Nova York e uma alta dos juros dos títulos da dívida pública norte-americana.
O recuo do mercado não teve nenhuma relação com a troca de comando do Departamento do Tesouro, anunciada dois dias antes pelo presidente Bill Clinton. Mas nem por isso deixou de suscitar tiradas de humor duvidoso sobre "o início da era Summers".
Os sinais de volta da inflação e a possibilidade de elevação dos juros nos Estados Unidos reforçaram a ansiedade que se instalou no mercado após a confirmação da partida de Robert Rubin do Departamento do Tesouro e da escolha de seu vice, Lawrence Summers, para o lugar. A inquietação é alimentada pelas diferenças entre os dois.
Ao contrário de Rubin, que fez carreira e fortuna como banqueiro de investimentos em Wall Street, Summers não tem vivência de mercado. Um ex-professor de Harvard que nunca trabalhou no setor privado, o futuro secretário do Tesouro é o oposto do homem que substituirá também no temperamento.
Rubin tornou-se o ministro mais influente da administração Clinton e ganhou o respeito de líderes democratas e republicanos com um estilo pessoal afável e sereno. Em contraste, Summers notabilizou-se no seu começo em Washington por uma tal fama de arrogância e falta de talento diplomático que chegou a colocar em dúvida suas chances de suceder Rubin.
Nos últimos dois anos ele fez um grande esforço para reformar sua imagem de professor pedante. "Alguns anos atrás, as pessoas poderia ter perguntado se ele teria uma atitude pessoal compatível com seu incrível talento, se ele conseguiria ser menos um acadêmico e mais um participante do jogo político em Washington", disse Daniel Tarullo, que foi assessor de Clinton na Casa Branca, até o ano passado.
"Hoje, não se ouve mais esse tipo de coisa pois Summers aprendeu com Rubin a ter certeza apenas sobre algumas coisas e a ter também consciência das coisas sobre as quais não está seguro".
Em seu papel de articulador e principal executor da estratégia contra a crise financeira global, o futuro secretário do Tesouro ganhou muitos críticos, especialmente no mundo acadêmico, mas conquistou credibilidade em Wall Street. Summers precisará dela e de todo seu reconhecido talento intelectual para confirmar a rota de continuidade da política econômica americana que sua nomeação representa e manter-se no posto se o vice-presidente Albert Gore suceder Clinton em janeiro de 2001. Ironicamente, seu maior problema é o sucesso da gestão de Rubin, que ajudou a construir.
Aclamado pelo presidente Bill Clinton e por líderes da oposição como um dos grande secretários do Tesouro da história dos EUA, Rubin mostrou ser um homem oriundo de Wall Street até ao escolher o momento para anunciar sua saída, que já era esperada. Depois de fazer seu sucessor, passou-lhe o cargo na alta.
Essa será a dor de cabeça permanente de Summers, que não deve ter problemas em obter a aprovação do Senado e tem posse prevista para o início de julho. Por melhor economista que seja e por mais que tenha aprendido com Rubin nos últimos quatro anos
o futuro secretário do Tesouro herda uma economia com mais chances de piorar do que de melhorar, pelas simples razão de que
melhor do que está, talvez seja impossível. Superar o legado Rubin seria um empreendimento difícil para qualquer sucessor.
Nos pouco mais de quatro anos de sua gestão no Tesouro, o déficit orçamentário do governo federal, que era de US$ 255 bilhões em janeiro de 1995, transformou-se num saldo de US$ 70 bilhões, o primeiro em quase trinta anos. O índice Dow Jones saltou de 3.200 para mais de 11 mil pontos. O desemprego recuou de 7,1% da mão-de-obra ativa para 4,3%, o mais baixo em 28 anos. Os juros dos bônus de 30 anos do Tesouro cairam de 7,332% para 5 82% ao ano e os juros da casa própria diminuíram de mais de 8% ao ano para menos de 7%.
Com a crise financeira global aparentemente superada, os analistas acreditam que a preocupação imediata de Summers, tão logo assuma, será convencer o Japão e a Europa a adotar políticas de estímulo ao crescimento para evitar que os EUA continuem a ser a única locomotiva da economia mundial e o principal destino das exportações dos países que desvalorizaram suas moedas.
Os sinais de volta da inflação nos EUA e a perspectiva de um aperto da política monetária pelo Fed devem ajudar Summers a vender esse argumento a partir da Cúpula Econômica do Grupo dos Sete (G-7) no mês que vem, na Alemanha, que deve marcar a despedida de Rubin e transição da liderança da equipe econômica norte-americana para Summers.

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