Washington, 11 Sewell Avery é uma nota ao pé da página da história. Em 1945 ele era executivo da Montgomery Ward, que na época era a principal concorrente da Sears, Roebuck como principal cadeia de vendas a varejo dos Estados Unidos. Estudante de História inteligente e irritadiço, Avery sabia que a maioria das guerras foi seguida de depressões: por isso recusou-se a expandir os negócios da empresa após a 2.ª Guerra Mundial.
Os preços dos bens de raiz cairiam durante a depressão, pensou. Robert E. Wood, executivo da Sears, não via prenúncios de depressão. Ele acreditava que os americanos do pós-guerra passariam a morar em subúrbios e construiriam lojas para servi-los. Em meados da década de 50 a Montgomery Ward estava muito atrás de sua concorrente, e Avery perdeu seu emprego.
Sinto uma vaga simpatia por ele nos tempos atuais. É dificil ser cético quando todos são otimistas. Como Avery, acho que a história tem importância. No início da década de 90, isso me levou a pôr em dúvida o pessimismo dominante em relação à economia americana.
Supunha-se que as nossas indústrias estivessem à beira da ruína: que tivéssemos perdido a competitividade. Que as rendas estivessem estagnando. Todas essas idéias eram muito exageradas _ como sabemos hoje. Mas o passado também me leva a suspeitar do atual otimismo desenfreado. Ao contrário de Avery, não prevejo uma depressão; mas tampouco julgo que a natureza humana tenha mudado, ou que o povo tenha perdido a capacidade de errar.
A história ensina que as quedas gerais de preços decorrem, com frequência, de erros de cálculos. As pessoas e as empresas cometem excessos, e assim que os excessos se tornam aparentes, os gastos diminuem e a economia decai. Atualmente há muitos sinais de excessos em potencial. Examinemos os candidatos óbvios, com as respectivas réplicas para sermos justos. _ A "bolha" do mercado de ações: No fim de agosto, William Melton, da Melton Research, considerou o índice de 500 ações da Standard & Poor "supervalorizada" na proporção de 13%. Um estudo de corretores da Salomon Smith Barney coloca a supervalorização da Média Industrial Dow Jones em 17%.
Uma acentuada queda nos preços das ações reduziria a confiança e, provavelmente, os investimentos de consumidores e empresas. (Os preços das ações refletem o que os investidores pensam do valor atual dos lucros futuros. As estimativas sobre se o mercado está "avaliado de modo justo" envolve hipóteses sobre lucros, taxas de juros e riscos.)
Réplica: Abby Joseph Cohen, da Goldman Sachs, julga que o mercado está sendo avaliado adequadamente. E, na maioria das vezes, ela tem razão. Excesso de gastos de consumidores: animados com a grande quantidade de empregos, com os crescentes preços das ações e a valorização das casas, os americanos estão gastando valores superiores ao de sua renda após a dedução de impostos.
Em 1999, o índice de poupança pessoal foi de aproximadamente -1%. Desde 1929, os índices de poupança só foram negativos duas vezes (1932 e 1933.) Os índices de poupança negativos resultam da retirada dos lucros de ações, da redução de contas bancárias e de empréstimos. Em 1998 mais da metade dos empréstimos concedidos sob hipoteca de casas foi feita com pagamento inicial (down payment) de menos de 10%, segundo informa a Chicago Title Corp.
A redução das despesas de consumidores poderia reduzir os empregos e os lucros.
Réplica: Os consumidores estão gastando apenas uma parte muito pequena, que não poderia ser considerada irrazoável, dos lucros de ações _ talvez 2% ou 3%. Ademais, as revisões estatísticas, previstas para outubro, poderão tornar o índice de poupanças positivo.
Explosão do déficit comercial: Em 1998 o déficit comercial aumentou 26% em relação ao ano anterior. Até esta altura de 1999, ele registra aumento de 34% em relação a 1998. Embora a demanda de importações, nos Estados Unidos, tenha a judado a ásia e a América Latina, cria o risco de perda de empregos ou de queda inflacionária na taxa de câmbio do dólar.
Réplica: O crescimento econômico está aumentando na Europa e no Japão.
Isso poderia favorecer as exportações americanas. Uma eventual baixa do valor do dólar seria pequena, porque os estrangeiros vêem os Estados Unidos como um "lugar seguro" e lucrativo para investimentos. _ Excesso de opções sobre ações: As opções multiplicaram-se muito rapidamente e talvez sejam usadas em excesso (overused). Na década de 90, as outstanding options das 200 companhias maiores duplicaram-se, chegando a representar quase 7% de suas ações, segundo a firma de consultoria Pearl Meyer & Partners. ( Opção sobre ação é o direito de comprar ações a um preço fixo, digamos, US$ 10; se o valor da ação aumentar para US$ 20, o detentor da opção terá lucro de US$ 10.)
A idéia é fazer com que os executivos dêem ênfase à rentabilidade, e não à construção de impérios. Mas se houvesse baixa no mercado de ações, poderia haver uma onda de vendas antes que as ações perdessem o valor.
Isso poderia aprofundar um eventual declínio.
Réplica: Muitas firmas exigem que seus executivos detenham grandes lotes de ações da companhia. Isso poderia evitar vendas desenfreadas. _ Capital a custo reduzido: a facilidade no levantamento de capital para investimento manteve muitas firmas iniciantes, que não tinham lucros, em atividade. Este ano quase 300 companhias já levantaram US$ 43 bilhões por meio de ofertas públicas iniciais de ações (OPIs) afirma a Renaissance Capital, empresa especializada em OPIs. Entre as 300 incluem-se 143 firmas da Internet, que levantaram US$ 11,4 bilhões. Em 1995, todas as OPIs só levantaram US$ 32.
Uma queda brusca dos preços das ações poderia interromper abruptamente a obtenção desse capital e as atividades de algumas firmas em iníco de operações.
Réplica: E daí? É inevitável (e até saudável), que algumas empresas iniciantes vão à falência. Os sobreviventes compensarao isso com vantagem. Lembrem-se, a Microsoft já foi uma empresa iniciante.
Essa lista, por si, não prova nada. Ela poderia ter sido feita há um ano. A prosperidade está durando. Mas a lista apresenta o retrato de uma economia operando on the edge, onde todas as coisas boas (mais gastos de consumidores, mais investimentos, empregos, lucros e preços de ações mais altos) alimentam umas às outras. Isso também indica que a economia é vulnerável a tudo o que poderia inverter o processo_ mais inflação, juros mais altos, lucros menores.
As coisas ruins (menos gastos, menos empregos, lucros reduzidos, preços de ações mais baixos) poderiam alimentar-se umas das outras.
É possível que alguma coisa tenha tornado a economia menos arriscada. Foi isso o que Avery não entendeu, após a 2.ª Guerra Mundial. Na década de 30, os governos abandonaram o padrão ouro: isto é, o uso do ouro para apoiar o papel-moeda. Com isso eles eliminaram a ligação entre a guerra e a depressão.
Durante as guerras, os governos suspenderam o padrão ouro, algumas vezes. Torrentes de papel-moeda atiçaram a inflação; os esforços envidados no pós-guerra para restaurar o padrão ouro causaram as depressões. Talvez agora uma reviravolta semelhante tenha melhorado as perspectivas econômicas. Os computadores - e suas ramificações _ são uma das possibilidades.
Mas o que vejo são mudanças que aumentam os riscos: mais fluxos globais de dinheiro e de produtos; os problemas em potencial da nova tecnologia (inclusive a ameaça Y2K); maior instabilidade política mundial. Nada disso desmente a prosperidade atual, porem deixa-me preocupado com o dia de amanhã.

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