Sinais de desassossego nos EUA por causa da guerra
Washington, 02 (AE-ANSA) - A situação na Iugoslávia, com todo o dramático êxodo dos kosovares e a obstinação de Belgrado frente aos bombardeios da Otan, está tirando o sono de Bill Clinton como não ocorria desde o desenlace do escândalo do "sexgate", há poucas semanas.
Clinton esperava que uma campanha de ataques aéreos intensa mas breve obrigaria Slobodan Milosevic a aceitar o plano de Rambouillet para Kosovo, mas agora ele percebeu que a teimosia de Belgrado coloca em jogo o prestígio dos Estados Unidos, a credibilidade da Otan e seu próprio lugar na história.
"Ele está muito cansado -confidenciou ao The Washington Post um amigo do presidente que pediu para não ser identificado -, mas resoluto. Ele acredita ter um dever moral do qual não pode fugir".
Outras pessoas próximas ao presidente apontaram também para o cansaço em seus olhos, cada vez mais inchados, e a voz cada vez mais rouca. "Clinton não é mais o mesmo", afirmou por seu lado um correspondente que o seguiu durante anos pelo mundo.
Funcionários da Casa Branca contam que o presidente vai deitar muito tarde e se levanta ao amanhecer para falar por telefone com os chefes de governo europeus em um esforço cotidiano para manter a Otan unida.
Na madrugada de quarta-feira para quinta-feira Clinton havia insistido para que o acordassem caso houvesse novidades sobre os três soldados, que logo se soube, capturados por tropas sérvias na fronteira entre Macedônia e Kosovo (Iugoslávia).
Quando de madrugada foi confirmado que eles eram prisioneiros e que a televisão de Belgrado havia mostrado imagens deles, o presidente confirmou a continuidade dos bombardeios e começou a pensar sobre o que diria às famílias dos militares, com as quais deveria reunir-se nesse mesmo dia na base de Norfolk, em Virgínia.
Entretanto, a lendária energia do presidente parece estar se esgotando.
Até há poucos meses, Clinton surpreendia a todos seus interlocutores por sua capacidade de captar imediatamente os problemas e por sua profunda competência nos campos mais diversos.
Era capaz de jogar cartas toda a noite no avião presidencial que o levava a Washington de uma cúpula na Europa, e partir de imediato para uma campanha partidária, parecendo fresco e descansado perante a multidão.
Tudo mudou agora. Clinton saiu do processo de "impeachment" mais testado, mas com uma reputação manchada e com uma situação familiar difícil.
Os que o rodeiam asseguram que durante o processo no Senado ele se manteve confiante e combativo, mas agora, seis semanas depois de sua conclusão, a nova emergência o encontra tenso e cansado.
Um de seus confidentes referiu-se no Washington Post ao pano de fundo de sua visita a um campo de golfe que, dias atrás, suscitou críticas.
Clinton sabia que parecia não ser o momento adequado, mas com seus colaboradores voltou a ver um filme no qual o presidente George Bush também jogava golfe enquanto suas tropas lutavam na guerra no Iraque.
"Houve um debate - informou o Washington Post - e no final Clinton disse que estava exausto e tinha necessidade de clarear suas idéias." Jogou golfe, consciente de que provocaria polêmica.
Um número crescente de especialistas, entre os quais Henry Kissinger, sustentam que a crise de Kosovo só será resolvida com o envio de tropas terrestres.
Mas o presidente é, neste sentido, ainda mais obstinado que o vice-presidente Al Gore, que teme ver os soldados em missões arriscadas e impopulares, precisamente no momento em que busca lançar sua campanha para as eleições presidenciais de 2000.
Nestes dias, tampouco se sente bem a secretária de Estado, Madeleine Albright.
O plano da intervenção aérea nos Bálcãs é em grande parte obra sua. Fazia um ano que ela ameaçava usar a força contra Slobodan Milosevic.
"Os Estados Unidos - advertia então - não podem limitar-se a olhar enquanto os sérvios fazem em Kosovo o que já não podem fazer na Bósnia".
Ela havia enviado a Clinton um memorando no qual sustentava que da resolução demonstrada nos Bálcãs dependeria o êxito de sua política externa. Uma afirmação que hoje parece ter dois gumes.
Não se pode mais voltar atrás. A Casa Branca está obrigada a seguir em frente, lançando cada vez mais bombas sobre os sérvios na esperança de que eles digam basta.





