Raimundo Valentim/AE

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Dedicação e lutaO filho mais velho de Betinho, Daniel (à dir.), carrega o caixão com o corpo de seu pai, que foi cremado ontem no RioO sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, teve ontem uma despedida no mesmo tom que marcou toda sua trajetória: uma cerimônia simples e informal. Antes da cremação do corpo, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, zona portuária do Rio, uma breve homenagem a Betinho reuniu cerca de 40 pessoas, entre amigos e parentes, que relembraram casos e histórias do sociólogo. As cinzas só serão entregues à família a partir de hoje, e, seguindo o desejo de Betinho, vão ser espalhadas em seu sítio em Itatiaia, no interior do Estado.
O ato de despedida, que durou cerca de meia hora, foi restrito à família e às pessoas próximas e teve a presença de poucas personalidades, como o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o deputado estadual Carlos Minc (PT-RJ) e o secretário-executivo do Movimento Viva Rio, Rubem César Fernandes.
A cerimônia foi aberta pelo filho mais velho de Betinho, o designer Daniel Carvalho de Souza, de 31 anos, que lembrou momentos vividos ao lado do pai durante o exílio no Chile. Daniel contou que, na época, ainda menino, era fã do herói de história em quadrinhos Tarzan. Ele não entendia por que Betinho criticava Tarzan e achava que ‘‘legal mesmo era a Chita’’. ‘‘Só muito mais tarde compreendi o que ele queria dizer’’, afirmou Daniel, bastante emocionado.
Ele sugeriu às demais pessoas presentes que contassem outras histórias sobre o sociólogo. Um dos relatos mais emocionantes foi o de Deodato Rivera, amigo de Betinho e companheiro de exílio. Ele criou uma fábula em que, durante um sonho, via no jornal ‘‘Diário do Céu’’ a notícia: ‘‘Betinho fugiu do céu’’.
A reportagem celestial contava que Betinho procurou Jesus para dizer que queria voltar para a Terra. ‘‘Isso aqui está muito chato, não tem ninguém com fome, não há cidadãos sem direitos e meu lugar não é aqui, não’’, disse ele a Cristo. Segundo a história de Rivera, Betinho desapareceu do céu no mesmo dia. ‘‘Foi transformado numa luz azul, que pode ser invocada a qualquer hora, por todos que o amam aqui na Terra’’, contou Rivera.
Um dos coordenadores do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, Átila Roque, lembrou uma saudação usada por Betinho na última visita que fez ao sociólogo. Ao ver o amigo, Betinho usou a expressão japonesa ‘‘mada dayo’’, que significa ‘‘ainda não’’. A expressão ficou conhecida com o filme homônimo do cineasta japonês Akira Kurosawa. Antes de o caixão ser levado para o forno crematório, houve uma salva de palmas. Após a cerimônia, alguns amigos de Betinho anunciaram a continuação de projetos iniciados por ele, como a gravação de um CD, que será vendido na campanha Natal Sem Fome.

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