Em Londrina, dos 1008 atendimentos realizados desde o início do ano pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social 3 (Creas 3), 202 incluiam violência física contra crianças e adolescentes. A comprovação das agressões, conforme a psicóloga Cristina Watarai, auxiliar de coordenação do serviço, não baseia-se apenas no laudo do IML, mas também no relato das vítimas e no relatório psicossocial.
Mas, segundo a especialista, a situação concreta é ainda pior. Isso por que o número de atendimentos não reflete a realidade uma vez que, no Brasil, a agressão é naturalizada e nem sempre gera ocorrências a serviços especializados. A constatação se comprova pelo relato das crianças, que afirmam ''ter merecido'' a surra. ''Elas explicam que apanham porque desobedecem os pais ou não se comportam como deveriam'', conta.
No desfecho das histórias, o mais comum é que os agressores sejam advertidos verbalmente. A necessidade maior, porém, diz respeito ao atendimento das famílias para solucionar o problema. ''Violência familiar não se resolve apenas com punição. É preciso oferecer tratamento aos pais para que entendam porque praticam a violência''.
Psicóloga voluntária na Delegacia da Mulher e da chamada Vara Maria da Penha, no Fórum de Londrina, Maria Cristina Alves Penha lembra que o abuso de álcool e outras drogas aumenta a violência familiar. ''Muitas vezes, a mãe tenta defender os filhos e acaba apanhando também'', conta, enfatizando que as próprias mães das crianças agredidas procuram atendimento, mas deixam de levá-las ao IML com medo de expô-las. ''É uma situação traumatizante.''
Ciente da necessidade de produzir laudos técnicos que possam ser utilizados como prova contundente da violência, incluindo casos de abuso psicológico, ela reforça a necessidade de atendimento sistemático com profissionais especializados no trato com criança.''Para lidar com esse público, não basta apenas ser 'boazinha''', conclui.

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