Raiva e vergonha são sentimentos que acompanharam a adolescente Janaína, 17, durante toda a infância. Filha de uma mãe violenta, ela foi agredida e espancada continuamente até os onze anos de idade. As agressões, disfarçadas de ''educação'', faziam-na sentir humilhada e indefesa. ''Ficava com muita raiva pois sabia que, na verdade, minha mãe estava descontando os problemas dela em mim.''
Objetos como pedaços de pau, cintas e fios eram utlizados para aumentar a crueldade contra a menina que chegou a ser amarrada com corda de varal como punição contra uma ''arte'' infantil. Os hematomas demoravam a sarar e deixavam Janaína com muita vergonha, principalmente dos amigos da escola. ''Não sentia que estava sendo cuidada'', conta.
Mãe e filha conseguiram superar a história de violência com apoio do Centro de Referência Especializado de Assistência Social 3 (Creas 3). Sem vergonha de admitir o erro, a artesã Lucimara Kinup de Souza Rabelo, 39, mãe de Janaína, revela que só conseguiu indentificar a própria agressividade depois de participar das dicussões do grupo de pais organizado pelo serviço. ''Eu não tinha noção que agia de forma errada. Achava que estava educando'', diz.
Do tempo em que espancava a menina, ela recorda que não conseguia controlar a raiva, a ponto de ter arremassado contra uma parede a filha pequena. ''Depois de bater, sentia remorso e pedia desculpas, mas acabava fazendo de novo. Minha filha tremia de medo só com meu olhar'', conta ela, que não sabia ter atitudes carinhosas com Janaína e o filho mais novo, Daniel, hoje com 10 anos. ''Eles me procuravam para receber carinho, atenção, e eu afastava. Saia de casa para ficar longe deles.''
A consciência despertou ao ouvir relatos de outros pais agressivos. Horrorizada com as histórias contadas, Lucimara acabou percebendo que fazia a mesma coisa e, vitoriosamente, conseguiu mudar de atitude. ''Para assumir meu erro, tive que aceitar que precisava de tratamento'', pontua.
Hoje, ela agradece pela oportrunidade de superação e demonstra aos filhos todo o amor que guardou durante os anos de violência. ''Poderia ter perdido minha filha para a rua, mas consegui mudar esse destino. Aprendi a reconhecer o valor dos meus filhos'', emociona-se. Sem dar vazão aos impulsos violentos, ela garante que aprendeu a sentar e conversar com os meninos quando há necessidade de impor limites.
O relato de Janaína, que passou a ver na mãe uma conselheira, confirma que o histórico de violência e falta de carinho foi superado. ''Voltei a confiar na minha mãe e finalmente sinto que ela cuida de mim.''

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