O urbanismo moderno já consagrou: as cidades precisam de espaços amplos de convivência pública. Além de ser item importante para o quesito qualidade de vida, praças ou parques são importantes para revitalizar regiões, valorizar imovéis, melhorar a paisagem.
Mas a Concha Acústica, na Praça Primeiro de Maio, ''obra iniciada e concluída no mandato administrativo do prefeito Antonio Fernandes Sobrinho'', já foi bem mais que isto, diz a história. Ao mesmo tempo foi sinônimo de reverência e irreverência, com tantas solenidades e tantas agitações em alternância. Era quase um habitat para os barbudos dos movimentos estudantil e sindical, com suas calças coloridas boca-de-sino. Como na Grécia Antiga, democracia era feita na praça.
Quando as palavras de ordem ganhavam amplitude e pareciam ser ouvidas pela cidade inteira, a Concha era um símbolo da organização política e da postura pró-ativa de uma geração. Nela, os sonhos eram coletivos e causavam orgulho.
Não que homens de farda ou paletó se sentissem pouco à vontade no habitat dos barbudos. Eles também cantavam o Hino Nacional acreditando em um ideal e chamavam de ''nossa'' aquela tribuna.
Um dia, um grupo decidiu ''engolir'' o outro. E não se fez mais democracia na praça. Nem na praça, nem em lugar algum. E o silêncio prevaleceu sobre o coro, o indivíduo sobre o grupo, a realidade sobre o sonho.
Mas havia outros corações batendo na praça. Havia a arte. Se todas as observações nas janelas do Centro Comercial formassem uma existência, esta existência certamente teria uma trilha sonora eclética.
E quando a Acústica parecia não servir para nada, quando as manifestações se tornaram crime, lá foram riffs barulhentos, percussões virtuosas, vocais doces, ou roucos, ou doces e roucos, continuar, de algum modo, a propagar as idéias dos barbudos. Ou a idéia dos homens de farda. Ou dos homens de paletó.
Na Concha houve sorteios e apresentações teatrais. Houve alegria do pai, um ex-barbudo, houve alegria da mãe, fã do Raul Seixas. O filhão comemorando o ingresso na UEL. De pijamas, o homem de farda e o homem de paletó, se decepcionando com o desempenho da neta. Bomba apesar do cursinho caro.
Mas se o monumento que completa hoje 56 anos for friamente analisado, se por um minuto ela for observada com atenção, chega-se a conclusão que, na Concha, a era é do silêncio. Ninguém está preocupado com a próxima manifestação afinal não se tem notícia sobre quando ela irá ocorrer ou com o próximo show (os vizinhos andaram reclamando do barulho). No dia-a-dia do século 21, a concha ouve ruídos, não mais os produz.
O Passat com o adesivo ''É velho mas tá pago'' desce a Piauí. Mais parece uma britadeira ambulante. Na Souza Naves, o ônibus da TCGL buzina e salva o ciclista do atropelamento. Na Maestro Egídio Camargo Amaral, uma das poucas vias da área central que conservou os paralelepípedos como piso, uma moça erra a marcha e o carrão ronca.
O flanelinha gargalha e parece satisfeito com a féria. De tão repetitivos, os sons que não testam a Acústica se tornaram orgânicos. Ninguém mais os percebe. O silêncio, sim. Este faz os frequentadores irem até a Concha.
Foi para isso que aquele senhor se instalou no mais alto dos 14 lances de arquibancada. Tem expressão carregada, olha o nada com preocupação. Senta com as pernas cruzadas, segura o joelho. Observa um outro senhor, negro de cabelos brancos, que conta moedas e, depois, parte decidido, não se sabe para onde.
O homem de calça cáqui troca passos lentos e senta-se no lado inverso para onde olha o busto do senador Abilon Souza Naves (instalado em 31/1/1960, ano seguinte à morte do político, que viveu apenas 52 anos). Tenta ler alguma coisa. Logo desiste. Demonstra aflição. Quer paz interior.
Um jovem casal passa de mãos dadas. Com o silêncio, ambos têm sensação de privacidade e param para se beijar a pedido dela. O guardador de carros caminha sobre uma arquibancada e tem visão panorâmica dos carros dos clientes. Um casal de meia-idade se assusta com o fotógrafo. Pedem para não serem fotografados. Ele diz: ''Isto aqui dá dois desquites''. Também desfrutam o silêncio que não incomoda.
Senhoras com bengalas, crianças índias devolutas no monumento branco, cachorrinhos de apartamentos eufóricos depois de ganharem seu momento sem coleira, colegas mostrando bolsa e sapatos novos uma para outra, mãe cuidadosa e amorosa mostrando ao filho a grandeza do mundo. Um rapaz aproveita o intervalo no trabalho e toma café na praça. Os sinos da Catedral anunciam o final da tarde. A Acústica da Concha molda o silêncio.

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