Brasília, 19 (AE) - Em todo o Brasil, os partidos políticos travam uma guerra de filiações que atingiu um nível considerado inédito até mesmo pelos dirigentes das principais legendas. O prazo final para filiação de quem deseja disputar as eleições municipais de 2000 se encerra no dia 30, e era previsível que houvesse um vaivém de lideranças em função do próximo pleito. O que não se esperava era um ritmo tão intenso: na última semana, em média, um prefeito trocou de partido no País a cada hora e cinco deputados estaduais mudaram de legenda por dia. No plano federal, 11 deputados migraram para outro partido ou estão em processo para se transferir até o dia 30. Sem contar ex-prefeitos ou ex-deputados federais que pretendem voltar à cena política em 2000.
"Troca de partidos sempre acontece, mas nunca vi nessa intensidade", admitiu o senador álvaro Dias (PSDB-PR), que comanda a legenda no Estado. No Paraná, o PSDB está funcionando em regime de plantão, com filiações sendo feitas até mesmo aos sábados e domingos. "Estamos filiando gente todos os dias, e conseguimos, na última semana, 40 prefeitos, um deputado federal (Alex Canziani, ex-PTB), além da promessa de dois estaduais nos acompanharem", disse, afirmando, contudo, que o quadro deve mudar pela mobilização desencadeada pelo governador Jaime Lerner (PFL) para deter o avanço tucano. Amanhã (20), Lerner anuncia a filiação de 52 prefeitos, mais de 10% do total paranaense, no partido. "Muitos dos que foram para o PSDB este mês vão sair do partido antes do final de setembro, entusiasmados com promessas de liberação de verbas e parceria em programas governamentais", disse Dias.
Para o senador tucano, não é só as próximas eleições que justificam uma migração deste tamanho, mas também o fantasma de uma reforma política que acabe com a infidelidade partidária e restrinja o número de partidos. "O pensamento a longo prazo está imperando em grande parte das trocas; políticos que não pretendem se candidatar ano que vêm já estão se filiando porque temem não poder o fazer depois para as eleições de 2002", disse. É o caso do empresário mato-grossense Blairo Maggi, que ingressou no PPS para concorrer ao governo em 2002, e do ex-deputado Sandro Mabel (GO) que saiu do PMDB rumo ao PFL, pensando em retornar para a Câmara daqui a três anos.
No Nordeste, a migração é ainda mais intensa e começou no início do ano. Em Alagoas, 15 dos 27 deputados estaduais eleitos em 1998 trocaram de partido. Em Sergipe, foram 13 dos 24 estaduais que fizeram o mesmo. "O empenho dos governadores está sendo decisivo para aumentar esta migração", disse o senador José Eduardo Dutra (PT-SE), usando como exemplo o Estado dele, onde o grupo político que apóia o governador Albano Franco (PSDB) procura reforçar legendas aliadas, como o PMDB e o PPS. "O PPS não elegeu nenhum vereador e hoje já é a maior bancada na Câmara de Aracaju", afirmou. O PPS conta com apenas quatro entre 21 vereadores. "O quadro partidário está tão pulverizado que partido que conta com dois vereadores é considerado grande"
afirmou Dutra.
Em Pernambuco, o governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) anuncia amanhã a filiação de quatro deputados estaduais e 11 prefeitos no partido para contrabalançar o ingresso, na semana passada, do senador Carlos Wilson, de dois deputados estaduais e um prefeito no PPS. Até pequenas legendas, como PRTB, PSDC e PST estão recebendo adesões. Neste caso, as adesões vêm de vereadores com dificuldades para se reeleger em 2000.
"O sistema proporcional de eleições incentiva candidatos a vereador a buscarem partidos pequenos; eles evitam partidos com vereadores bons de voto porque temem reforçar a votação da coligação, ajudaram a eleger os principais candidatos da legenda e se tornaram apenas suplentes", disse o deputado Vilmar Rocha (PFL-GO), membro da Executiva Nacional do PFL, que, em Goiás, filiou dez prefeitos na última semana e pretende angariar três deputados estaduais na próxima. "O dia 25 (sábado) foi considerado o dia nacional de filiações do partido e haverá atos no Brasil inteiro", disse o parlamentar.
Como o quadro da disputa eleitoral de 2000 tende à pulverização, interessa também aos políticos locais se sentir livres das grandes estruturas para negociar o apoio. Em Maceió, por exemplo, a previsão é que haja pelo menos dez candidatos. No Rio e em São Paulo, oito. "No PMDB, eu não era protagonista do jogo político em minha região; agora, no PPS, posso até não ser candidato, mas serei ouvido", disse o deputado federal Edinho Araújo (SP), que tem em São José do Rio Preto, no interior do Estado, a base. A troca de partidos também foi insuflada por políticos sem mandato que tentam o retorno: em Belo Horizonte, o ex-prefeito Sérgio Ferrara foi para o PL, em Goiânia; o ex-prefeito Darci Accorsi, que foi do PT e passou pelo PSB, agora está no PTB, e, em Manaus, o ex-prefeito Eduardo Braga (ex-PPB) concorrerá pelo PPS.

mockup