Sicride vai investigar adoções via Internet
Dimitri do Valle
De Curitiba
O Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), em Curitiba, começa a apurar esta semana a denúncia de adoção irregular de crianças paranaenses intermediadas pela Limiar, uma organização não-governamental norte-americana. Reportagem da edição de ontem da Folha de S. Paulo revela que a maioria das crianças oferecidas pela Limiar é do Paraná.
A entidade, segundo o jornal paulista, cobraria de famílias dos Estados Unidos US$ 5,5 mil para cada adoção de criança brasileira. Meninos e meninas são oferecidos pela Internet. Os casais interessados recebiam até uma fita de vídeo que servia de catálogo.
Ao saber da notícia ontem à tarde em contato com a Folha do Paraná/Folha de Londrina, o delegado-titular do Sicride, Harry Carlos Herbert, disse que levantará a atual situação da Limiar junto a Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), que controla as adoções de crianças paranaenses por casais estrangeiros.
Herbert disse que ficou estarrecido com os métodos usados pela Limiar para apresentar as crianças. É o mesmo tipo de comportamento com a época da escravidão, não tem muita diferença, afirmou o delegado.
Herbert disse que conversará com o representante da Limiar em Curitiba para tentar confirmar as denúncias. A presidente da entidade nos EUA, Nancy Cameron, negou à Folha de S. Paulo que houvesse a cobrança de US$ 5,5 mil por adoção. Sobre as fitas de vídeo, Nancy alegou que as famílias norte-americanas não têm a mínima idéia da aparência das crianças brasileiras. O material, segundo a presidente da Limiar, serve para que os interessados tenham o máximo de informações possíveis das crianças que pretendem adotar. Se não, terá os mesmo problemas de um casamento arranjado, declarou. Ela alegou também que os pagamentos pela intermediação da adoção são voluntários.
Na opinião do delegado Harry Herbert, o procedimento não é tão simples como Nancy defendeu. Não vou descansar enquanto houver comércio de crianças, mesmo porque é crime, dá de dois anos a seis anos de reclusão, de acordo com o Estatuto da Criança e Adolescente, argumentou. O delegado disse que a utilização das fitas para mostrar as crianças representa uma banalização da vida. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o desembargador Moacir Guimarães, vice-presidente da comissão que cuida das adoções no Estado, também reagiu com indignação.
Segundo Guimarães, oferecer crianças para adoção pela Internet ou por meio de fitas de vídeo é ilegal. O desembargador esclareceu que só o Judiciário tem a prerrogativa de escolher os pais adotivos. Nossas crianças não podem ficar expostas como num supermercado. Isso é totalmente contrário aos nossos princípios. Nós fazemos adoção não para atender ao casal, mas para atender a nossa criança, explicou. Ele disse que a imagem da Limiar junto às autoridades do Judiciário paranaense era muito positiva, mas confessou ser uma barbaridade o fato da entidade apresentar crianças para adoção por intermédio da Internet.





