Um eterno apaixonado pela Espanha, em especial por Sevilha, o escritor João Cabral de Melo Neto, de 78 anos, recebeu, ontem, em seu apartamento, no Rio, o reconhecimento por este amor. O presidente do governo provincial da região de Sevilha, Alfredo Sanchez, enviou, através do diretor de turismo da região, Gregorio Mu¤oz, uma placa agradecendo a dedicação do escritor à cidade. ‘‘João Cabral não é espanhol, não é sevilhano e entrou de coração na nossa cidade’’, ressaltou Mu¤oz.
A cerimônia aconteceu às 16 horas, no apartamento do escritor. Algo bem ao seu estilo: simples e discreto. Doente, praticamente cego, e com problemas de depressão, o autor de ‘‘Morte e Vida Severina’’ não tem recebido visitas, mas abriu uma exceção ao governo espanhol. Além do diretor de turismo de Sevilha, o cônsul geral da Espanha, Juan Manuel Cabrera, esteve presente.
A idéia de homenagear o escritor e poeta surgiu há dois anos. Inicialmente, o governo de Sevilha tinha como projeto entregar a placa na Universidade de Sevilha. Com a saúde do escritor fragilizada, optou-se pela realização da cerimônia na casa de João Cabral. Segundo Gregório Mu¤oz, durante muitos anos a Andaluzia esteve presente em obras de diversos escritores românticos do final do século XIX. Para Mu¤uz, João Cabral é o único escritor moderno e vivo, que nutre e expressa um sentimento forte pela região. ‘‘João Cabral soube compreender a personalidade extrema de Sevilha e a projetou para o mundo inteiro’’, disse Gregório Mu¤oz.
Pernambucano de tradicional família de senhores de engenho, João Cabral foi aprovado para a carreira diplomática em final de 1945. Como cônsul-geral e embaixador do Brasil rodou o mundo. Genebra, Dacar, Quito e Marselha são alguns dos lugares onde trabalhou. Serviu várias vezes em Sevilha e em Barcelona conheceu o pintor Miró, quando escreveu um ensaio crítico da obra deste artista. Segundo especialistas em literatura, de todos os lugares por onde passou, João Cabral recebeu em sua obra mais influências da Espanha. No poema ‘‘Autocrítica’’, de ‘‘A Escola das Facas’’ (1980, ele revela que Sevilha foi co-responsável, junto com Pernambuco, por sua inspiração poética.
Integrante da Acadêmia Brasileira de Letras (ABL), em 1990 ele ganhou o prêmio Luis de Camões, considerado o maior da literatura.

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