São Paulo, 8 (AE) - A indústria têxtil brasileira precisa investir de US$ 10,8 bilhões nos próximos oito anos, se quiser atender a demanda do mercado local, resistir às importações e estabelecer uma forte base de exportação. Dos US$ 10,8 bilhões, 55% devem ser destinados à modernização e 45%, à expansão. A conclusão faz parte de um estudo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), resultado de oito meses de trabalho, encomendado à Gherzi Textil Organisation, consultoria internacional especializada em têxteis.
Segundo o relatório, o valor é necessário para corrigir a insuficiência de investimentos verificada nas últimas duas ou três décadas, apesar de o setor ter aplicado US$ 6 bilhões desde 1994. Os recursos necessários do Programa de Restruturação Proposto (PRP), que abrange toda a cadeia produtiva, alcançariam a ordem de US$ 6,5 bilhões nos próximos cinco anos e US$ 4,3 bilhões, nos outros três anos.
O PIB têxtil em 1998, segundo os dados da Abit, alcançou US$ 25 bilhões. A meta para os próximos anos será de US$ 30 bilhões, por meio de programas que prevêem o crescimento do setor e requerem investimentos de US$ 1,5 bilhão anuais.
O objetivo do programa é estimular principamente a atuação das pequenas e médias empresas no Brasil e no mercado internacional. A Abit orquestraria a negociação entre as empresas e os fornecedores para compras "cooperativas" de equipamentos, por exemplo.
"A Associação reúne um grupo de empresas e organiza a compra de um grande lote, a maior do mundo, o que facilita a negociação de melhores preços e financiamentos, vantagens que seriam repassadas", disse o presidente da entidade, Paulo Skaf. "O poder de barganha passa a ser maior", avaliou.
Paulo Skaf destacou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também está disposto a investir. "O lançamento do fundo de aval na semana passada permitirá ao BNDES dispor linhas de financiamentos, com prazos de 10 anos, para projetos que necessitem de recursos superiores a R$ 7 milhões. O BNDES será responsável por 80% dos financiamentos, enquanto os bancos que intermediam os empréstimos, 20%", afirmou Skaf.
O presidente da Abit explicou que os financiamentos ficavam "engessados" porque os bancos, agentes financeiros intermediários das operações entre as empresas e o BNDES, eram responsáveis pelo pagamento dos empréstimos caso os empresários se tornassem inadimplentes.
"Esse fundo de aval não servirá apenas para a compra de equipamentos, mas também para vendas de peças e investimentos às exportações", disse Paulo Skaf. "A indústria têxtil está fazendo a lição de casa. O governo tem que sair da fase dos sinais positivos e passar para a prática", afirmou.
Para Skaf, o governo deveria rever suas políticas financeira e fiscal em relação às empresas exportadoras, sobretudo reexamiando o Programa Proex e os níveis dos juros. "O governo não pode penalizar a indústria produtiva, que não aguenta os juros absurdos e a falta de crédito", disse. Além de repudiar o "escancaramento" dos portos, Skaf sugere que o governo tome atitudes mais agressivas para impedir o contrabando.
Desempenho - As vendas totais da indústria têxtil somaram US$ 37 bilhões em 1998, o que representou 7% do faturamento do segmento manufatureiro. As empresas do setor fecharam o ano com 1,6 milhão de empregos, com estimativas de abrir mais 1 milhão de novas vagas no País nos próximos cinco anos.
O setor de vestuário respondeu por 50% das vendas da indústria e por mais de 70% do emprego no ano passado. As 22 mil empresas, segundo informa o estudo da Abit, processaram cerca de 1,35 milhão de toneladas de matérias-primas em 1996, o equivalente a um consumo per capita de 8,6 quilos, comparado a média mundial de 7,6 quilos.
As exportações da indústria brasileira de têxteis e vestuário alcançaram a cifra de US$ 1,1 bilhão em 1998, contra um pico de US$ 1,5 bilhão em 1992. As importações, por outro lado, saltaram de US$ 500 milhões, em 1990, para US$ 1,9 bilhão no ano passado.
Fibras têxteis responderam por 32% das importações de 1998, com as fibras químicas das principais fábricas da ásia conquistando uma fatia crescente das importações. Vestuário (US$ 360 milhões) e outros produtos têxteis (US$ 280 milhões) também foram importados em quantidades crescentes nos últimos anos.
A meta do setor de aumentar as exportações para US$ 4 bilhões/ano até 2002 significa, segundo a Abit, voltar a participar do comércio mundial de têxteis com 1%, como em 1980. "Naquela época, o comércio mundial girava em torno de US$ 100 bilhões, enquanto as exportações brasileiras de têxteis chegaram a US$ 1 bilhão. Hoje, são negociados no mundo cerca de US$ 350 bilhões, com projeções para chegar a US$ 400 bilhões nos próximos três anos", calcula Paulo Skaf.
Consórcios de exportação A Abit e outras entidades participarão de uma reunião, dia 16, com a diretora executiva da Agência de Promoção de Exportações (Apex), ligada ao Sebrae nacional, Dorothéa Wernek. Durante o encontro, os setores discutirão a formação de consórcios de exportação para estimular o ingresso de pequenas e médias empresas no mercado internacional.
Dos oito projetos da Abit que estão na fila dos financiamentos da Apex, dois são de consórcios de exportação. Por este caminho, um grupo de empresas se une para aprimorar a capacidade de atender pedidos de exportação com disciplina, produção, metodologia e qualidade. "Os empresários dividem os custos das promoções de vendas, do aprimoramento do pessoal empregado, da participação de empresários em congressos, feiras e eventos, entre outros gastos, o que desperta o espírito cooperativo", analisou Paulo Skaf.
O presidente da Abit destacou que 95% das exportadoras brasileiras são grandes empresas, enquanto apenas 5% são formadas por médias e pequenas. Ele disse que na Itália, onde teve início a formação de consórcios, 50% das pequenas e médias empresas exportam.

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