São Paulo, 20 (AE) - A edição de abril da revista UPDATE, da Câmara Americana de Comércio de São Paulo (Amcham), que começou a circular esta semana, traz a corrupção como assunto de capa e aborda o tema de forma aberta. "A corrupção tem duas faces", constata a revista, para reconhecer que se o problema existe no setor público é porque o setor privado exerce um ativo papel de corruptor. "O setor público não corrompe o setor público; quem corrompe é o setor privado", afirma na reportagem o presidente da Amcham-SP, John Mein.
Embora admita grandes dificuldades, a Amcham acredita que existam algumas medidas para combater a corrupção e atenuá-la, transformando-a de epidemia em mera afecção esporádica. "Cada vez mais gente, na vida pública e no setor privado, está convencida de que a questão deixou de ser apenas moral e se tornou estrutural", escreve a revista em seu editorial.
"Mais um pré-requisito para enfrentar adequadamente o problema é conhecer o poder de fogo do inimigo e saber onde ele está", diz a reportagem. Para Mein, até agora não se pôde medir o Custo Brasil oculto, mas é possível que seja maior do que aquele dimensionado, causado, por exemplo, por tributos e deficiências de infra-estrutura do país.
"Isto mostra uma acomodação no terreno moral, mas é também reflexo de um sistema que enfatizou a centralização, o controle, a defesa da corporação, da burocracia", responde Mein. O presidente da Amcham acredita ainda que será necessário repensar algumas das amarras normativas e institucionais que encorajam a "criação de dificuldades para vender facilidades".
O professor Marcos Fernandes da Silva, da Fundação Getúlio Vargas-SP, diz que a corrupção está ligada à evolução das instituições e deve ser estudada como fenômeno econômico. "Trata-se de um fato econômico, uma atividade econômica que, tal qual o crime, tem custos para a sociedade", afirma o professor.
Gerald Greene, conselheiro da Amcham, diz que o lado mais perverso da corrupção é que seu custo econômico é sempre absorvido pela parcela da população que tem menos poder e dinheiro. Se a corrupção acontece no governo, diz Greene, o cidadão não vai receber 100% de retorno do imposto que pagou. "Se acontece na área privada, é o consumidor que vai pagar pelo dinheiro do suborno, que encarece o negócio."
Segundo a revista da Câmara Americana, várias entidades independentes, como a Transparência Brasil, começam a surgir para enfrentar a corrupção. Para o presidente dessa entidade, Eduardo Capobiano, é muito difícil implantar uma economia de mercado em um sistema sujeito à corrupção. "Com ela, não se pode promover o desenvolvimento e diminuir a pobreza", explica Capobianco na entrevista concedida à UPDATE.
De acordo com ele, todo esforço e investimento de uma empresa para reduzir custos e aumentar a produtividade podem ir por água abaixo se qualquer aventureiro atravessar o caminho com alguma artifício ilegal. "A corrupção afeta a decisão das empresas de investir no Brasil", acrescenta Capobianco.
Segundo um estudo da AT Kearney, citada pela UPDATE, a corrupção é o principal fator que afugenta investimentos estrangeiros em mercados emergentes. A pesquisa, que consultou executivos de grandes multinacionais, mostra que 58% dos entrevistados apontam a corrupção como maior motivo para não investir na China, por exemplo. Outros 49% indicaram a falta de infra-estrutura, apesar do potencial de mercado, indicado por 86% como principal razão para investir em um país.
A reportagem da UPDATE traz ainda alguns outros levantamentos sobre os setores onde existem maior probabilidades de um funcionários públicos de alto escalão aceitar ou exigir propinas. As áreas de construção civil e de compras de armamentos para defesa são as campeãs. Depois vêm os setores de energia, indústria e saúde. Finalmente aparecem telecomunicações e corrreios, aviação civil, setor bancário e agricultura.
Uma das pesquisas mostra que a maioria (65%) atribui ao aumento da corrupção os baixos salários. Outro grande porcentual dos pesquisados (63%) acredita que a imunidade das pessoas que ocupam cargos públicos é outro fator que faz aumentar a corrupção. A falta de transparência do governo é indicada por 57% e 51% acreditam que a deterioração do sistema de compras públicas seja a responsável.

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