Setor dissidente ameaça dividir CGT argentina12/Mar, 18:42 Por Ariel Palacios, especial para a AE Buenos Aires, 12 (AE) - A histórica Confederação Geral do Trabalho (CGT), motivo de inúmeras enxaquecas para diversos presidentes e ditadores argentinos nos últimos 50 anos, hoje é uma sombra do que foi no passado. A anemia que sofre poderá se acentuar mais ainda nesta quinta-feira, quando correrá o risco de rachar em duas partes. O motivo: um setor dissidente da central sindical pretende aclamar nesse dia o líder do sindicato dos caminhoneiros, Hugo Moyano, como novo secretário-geral da CGT. A atual liderança da central sindical não concorda com esta eleição, e afirma que a escolha do novo secretário somente poderá ser feita em setembro. Dessa forma, duas cúpulas sindicais estariam coexistindo a contragosto, e se engalfinhariam em uma acirrada disputa. Ambos lados lutam pela sigla CGT, que, apesar de sua decadência, é uma grife que vale a pena ostentar. Quem a possuir torna-se automaticamente o interlocutor oficial de 40% dos trabalhadores argentinos com o governo. De um lado estão os "negociadores", ou "los gordos", no jargão sindical, atualmente no poder, e que acabaram de realizar um pacto com o governo do presidente Fernando de la Rúa, permitindo a reforma trabalhista. Do lado dissidente, estão os "combativos", ou a "linha-dura", que rechaçam a reforma. O cerne desse grupo é o Movimento dos Trabalhadores Argentinos (MTA), que embora dissidente da CGT, nunca a abandonou. Antes reunia os sindicatos de transportes, mas agora possui novos aliados, entre os quais estão os sindicatos de maior capacidade mobilizadora: metalúrgicos, mecânicos e construção civil. Temores - Há pouco mais de um mês, os negociadores gritavam slogans contra o FMI e protestavam contra a reforma trabalhista, que permitirá que os salários sejam mais baixos, as férias mais curtas e a jornada de trabalho mais longa. Mas essas não eram as maiores preocupações da liderança sindical: um dos pontos mais temidos da reforma pelos negociadores era a perda do controle direto dos comitês de fábricas, o que tornaria a CGT um poder puramente simbólico. Outro temor era a eliminação do imposto sindical, no qual cada trabalhador fornece 2,5% de seu salário ao sindicato. Esse dinheiro enriqueceu ilicitamente a cúpula sindical, e proporcionou há dois meses uma cena antológica: em uma reunião com o ministro do Trabalho, Alberto Flamarique, os líderes sindicais chegaram em luxuosos carros importados, enquanto o ministro saía de um táxi. Mas, poucas semanas depois, os negociadores supreenderam o país assinando um pacto com o governo. Grande parte dos direitos trabalhistas conquistados nos últimos 50 anos desvaneceram no ar. Os negociadores, porém, conseguiram manter o que mais lhes importava: o controle dos comitês e o imposto sindical. O setor dissidente se opôs ao pacto, e convocou uma manifestação na Praça de Maio. Chamou os negociadores de traidores e reuniu 20 mil manifestantes, o que foi considerado uma relativa vitória. O seguinte passo, afirmam, é destronar a atual cúpula. Figura inócua - O atual secretário-geral, Rodolfo Daer, contra a eleição desta quinta-feira, foi veemente: "Será um congresso ilegal." Originário do pequeno sindicato dos trabalhadores da alimentação, Daer foi colocado no poder em 1997 pelas eminências pardas da CGT por ser uma figura inócua. Apaixonado por carros importados, teve uma rentável relação com o governo do ex-presidente Carlos Menem (1989-1999), e participou de várias turnês presidenciais no exterior. Segundo analistas, nas últimas décadas, a CGT passou por vários rachas, e sempre após um período de confronto, os líderes sindicais voltaram inexoravelmente a reunir-se. Sobre isso não há dúvidas. Mas a pergunta que se fazem é "como o governo De la Rúa aproveitará a divisão temporária?".