Ribeirão Preto, SP, 17 (AE) - As indústrias de máquinas e implementos agrícolas estão caminhando para um processo de desnacionalizaçao sem retorno e que terá este ano seu marco definitivo, na avaliação do presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas, Shiro Nishimura, que é também diretor da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq). Segundo ele, se não houver uma política governamental de apoio ao agricultor ou a recuperação dos preços das principais commodities nacionais, como soja, milho e algodão, que podem permitir a capitalização do setor, as indústrias de máquinas estão "fadadas" a serem entregues às multinacionais, disse, citando o exemplo da Baldan Implementos Agrícolas, de Matão, arrendada pela Agri-Tillage do Brasil.
"Essa não é a primeira e não será a última, haja vista a movimentação do mercado nesse sentido", disse ele, lembrando a aquisição da Brastoft pela Case no ano passado e citando os nomes da John Deere e New Holland, além da própria Case, como as múltis que mais têm feito investidas no setor. "Sabemos de uma série de empresas que estão endividadas porque estão com cerca de 30% de ociosidade em sua capacidade de produção. Some-se a isso o aumento dos custos, juros altos e ofertas estrangeiras e não é possível desenhar outro panorama futuro no País", afirmou.
Para Nishimura, a indústria tem como "último fio de esperança" este ano a expectativa de crescimento do PIB brasileiro na ordem dos 4%. "Se isso se repetir por uns três anos seguidos, ninguém segura o potencial agrícola deste País. É nisso que as estrangeiras estão se apoiando para procurar novos investimentos por aqui", disse ele.
Em sua análise, o Brasil é o único hoje a dispor de tecnologia em sementes para o clima tropical e precisa de máquinas específicas para isso. "As máquinas nacionais hoje são mais baratas, têm manejo mais simples e já são adaptadas ao clima e solo do País, o que permite ganhos na produtividade", disse. Ele lembrou que a utilização de máquinas estrangeiras exige maior qualificação da mão-de-obra, que muitas vezes não sabe lidar com o manejo correto e acaba prejudicando a cultura, tendo como consequência queda na produtividade e redução na margem de lucro.
"Se permitirmos um sucateamento da indústria nacional com a entrada de estrangeiros no setor, vamos permitir o desemprego de mão-de-obra não qualificada que opera máquinas mais simples e, mais que isso, vamos cometer os mesmos erros já feitos pela indústria automobilística nacional, que permitiu a desnacionalização das fábricas de componentes.", defendeu.
Na avaliação de Nishimura, o arrendamento da Baldan não é um caso isolado no mercado. "Existem várias empresas que por demandas jurídicas são pegas no contrapé, como no caso da Baldan
que teve, inclusive de pedir concordata antes do arrendamento por parte de sua principal fornecedora", comentou. A Baldan, que há 72 anos fabrica máquinas e implementos agrícolas em Matão foi arrendada em contrato fechado em janeiro deste ano pela Agri-Tillage do Brasil, por tempo indeterminado.
Pelo arrendamento, a norte-americana, passa a pagar US$ 1,5 milhão anuais à Baldan pela sua marca e instalações, além de se comprometer a investir US$ 25 milhões nos próximos cinco anos na aquisição de novas máquinas, ampliação e robotização das linhas de produção.
Para possibilitar o arrendamento da empresa, a Agri-Tillage, que foi a maior compradora de produtos da Baldan nas duas décadas passadas e havia adquirido parte da empresa há cerca de cinco anos, teve que fundar uma subsidiária em São Paulo e uma filial em Matão e chegou a até fechar um megacontrato de exportações de US$ 16,5 milhões para os Estados Unidos com entrega prevista em quatro anos. O contrato de arrendamento vigora por tempo indeterminado, mas o aluguel das instalações da empresa, de 260 mil metros quadrados de terreno, é de 15 anos.
Com o arrendamento para a Agri-Tillage, a Baldan ficará este ano de fora da sétima edição da Agrishow, que acontece em Ribeirão Preto, entre os dias 1º e 6 de maio. A empresa, por seis anos consecutivos, foi uma das principais presenças no evento, mas segundo divulgou a diretoria, este será um ano de "balanço" para uma nova investida da Baldan no setor.
No ano passado, a empresa havia mudado suas cores e tentava assumir nova postura no mercado de máquinas e implementos agrícolas após pagar a primeira parcela da concordata, pedida em 1997. Na época da concordata, a empresa faturava US$ 52,6 milhões, sendo US$ 16,3 milhões em exportações. Em 99, no entanto, o faturamento da Baldan foi de US$ 33,1 milhões, com exportações na casa dos US$ 7,3 milhões.
A empresa, que tinha gestão familiar durante quatro gerações do imigrante italiano Narciso Baldan, começou processo de profissionalização da administração em 1998, quando contava com cerca de 2,6 mil funcionários. Hoje a empresa arrendada possui apenas 600 trabalhadores. A expectativa, com o arrendamento, é que a Baldan- Agri-Tillage, eleve o volume de exportações da empresa ainda este ano para 50% do faturamento, explorando principalmente o mercado europeu.

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