São Paulo, 20 (AE) - Apesar da livre flutuação do dólar, a indústria de calçados do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, ainda não sentiu os reflexos da mudança cambial nos seus negócios. Exemplo disso é que, em abril, a receita de exportação baixou, justamente quando o setor aguardava uma reação. O valor das vendas brasileiras para o exterior atingiu US$ 94,7 milhões naquele mês, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). Mais de 70% desse número se deve às exportações gaúchas. "O positivo é que aumentou o volume físico das vendas em 11%", diz o vice-presidente da Abicalçados para a área de mercado externo, Ricardo Wirth. Ele acha, porém, que as cifras mais alentadoras estão reservadas para o segundo semestre
especialmente os últimos quatro meses de 1999.
"Lá por agosto é que se vai perceber a melhora", acredita o vice-presidente da Federação Democrática dos Sapateiros/RS, João Batista Xavier da Silva. Secretário do Sindicato dos Sapateiros de Sapiranga, cidade situada no Vale dos Sinos, o que ele detecta, por enquanto, é uma lenta redução do desemprego. "Aqui em Sapiranga, em 1998, já tivemos 6 mil desempregados. Hoje devemos ter 5 mil", arrisca.
Logo que ocorreu a desvalorização, a Abicalçados previu um avanço de 25% sobre o US$ 1,3 bilhão obtido com negócios com o exterior em 1998. O prognóstico foi repensado depois do baixo desempenho de abril. Wirth ficaria satisfeito com um retorno ao desempenho de 1997, um pouco acima do US$ 1,5 bilhão. "Significaria mais US$ 200 milhões."
Wirth está de olho no mercado norte-americano, responsável por 70% das compras no Brasil. "Seu potencial é muito grande", assinala, lembrando que o País já foi responsável por 10% das importações norte-americanas de calçados e hoje responde por apenas 5%. "Se fôssemos a uns 7%, estaria bom", avalia. Em 1998, o Rio Grande do Sul, especialmente o Vale do Rio dos Sinos, respondeu por 87% (volume financeiro) e 73% (volume físico) das exportações brasileiras.
Silva tem esperança de que uma nova iniciativa ajude na reação, especialmente das micro, pequenas e médias indústrias, além das cooperativas de trabalho. Na quarta-feira passada, o governo estadual lançou um programa de ajuda ao setor, com a liberação inicial de R$ 25 milhões. Maior centro produtor de calçados do País, o Vale dos Sinos perdeu cerca de 60 mil vagas nos últimos dez anos.
Franca - O principal pólo industrial de calçados de São Paulo pode voltar a exportar logo os US$ 200 milhões dos anos 94 e 95. A retomada já ocorre. Os negócios desde o último mês são melhores tanto para o mercado interno como para a exportação. Segundo o industrial Wanderley Sábio de Mello, diretor da Samello, a tempestade passou e já se pode ver o período de bonança. Em 98 foram exportados apenas US$ 60 milhões. Já no último mês as indústrias de Franca contrataram mil trabalhadores.
Antonio Carlos Coutinho, do Sindicato das Iundústrias de Calçados de Franca, também vê com otimismo os próximos meses para o setor. Ele disse que em janeiro as indústrias de calçados de Franca tinham 15.215 trabalhadores empregados. Esse número só alcançou recuperação a partir de maio, quando eram 16.158 os contratados. A tendência é de evolução para o segundo semestre. Coutinho explicou também que há um número considerável de trabalhadores empregados nas bancas de pesponto, que não são filiadas ao sindicato, o que eleva bastante o número de empregos na cidade. Ainda segundo Coutinho, os industriais estão bastante confiantes em relação ao segundo semestre deste ano. "No início de 1999, a sensação era de insegurança. Parecia que o céu desabaria sobre a cabeça das pessoas. Isso não ocorreu e agora todos estão mais confiantes." O prefeito Gilmar Dominici disse que tem expectativa de um período melhor, tanto em termos de oferta de empregos como na arrecadação dos impostos advindos das atividades do setor.
A Samello, por exemplo, produz atualmente 10 mil pares de calçados por dia, utilizando 2,5 mil funcionários. Exporta 50% da produção. Em um ano, espera empregar 4 mil trabalhadores, nas unidades de Franca, Cassia (MG) e Santa Rita (PB).

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