Setor de alimentos é o terceiro em aquisições
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Rosângela Capozoli 
São Paulo, 24 (AE) - Por cinco anos a indústria de alimentos reinou na liderança em fusões e aquisições. Desbancada no ano passado pelos setores de telecomunicações e computação, caiu para o terceiro lugar no ranking, registrando 25 negócios. "As transações globais caíram 12% em 1999 em relação ao ano anterior - 309 ante 351 - enquanto o setor de alimentos teve redução de 30%", disse André Castello Branco, sócio da consultoria KPMG Corporate Finance.
A classificação deverá se repetir em 2000, porém com um grande diferencial. Embora tenha perdido o primeiro lugar, o volume de transações ainda deverá ser superior ao de 1999, por se tratar de um segmento muito pulverizado. "O amadurecimento do processo trouxe uma inversão na colocação e a curto prazo o setor não deve reassumir a liderança", disse.
Quando se trata de investimento, a indústria alimentícia também difere das demais. "Os investimentos têm sido constantes e sustentáveis todos os anos, independente de boom", informou Antônio João Vialle Cordeiro, diretor sócio da consultoria Simonsen Associados, que atua há 34 anos no mercado.
Dona do terceiro lugar também em investimentos, a indústria de alimentos tem sido contemplada com cifras elevadas ao longo da década. Pesquisa de intenção de investimentos feita pela Simonsen mostra que há dez anos foram injetados US$ 2 bilhões na área, passando para US$ 15,3 bilhões em 1998, ou seja
alta de 665%.
No ano passado o montante somou US$ 4,7 bilhões que, transformados em reais, quase empatam. "A perspectiva para 2000 é de crescimento mínimo em torno de 15%", afirmou.
Cordeiro e Castello Branco têm o mesmo prognóstico quanto ao crescimento de fusões e aquisições. "Nos últimos dois anos a procura de empresas de portes internacionais e nacionais por aquisições e associações no ramo dobrou e essa tendência deverá prevalecer ao longo de 2000", disse o diretor da Simonsen. Para Castello Branco, o Brasil está cada vez mais atraindo a atenção de investidores estrangeiros nessa área, na medida em que a desvalorização cambial tornou as empresas nacionais mais atraentes.
O diretor da Simonsen ressaltou que esse tipo de transação, que até recentemente era prioridade das gigantes e multinacionais, hoje está chamando a atenção das pequenas e médias indústrias nacionais a negociarem entre si.
"Já existe um forte movimento de empresas brasileiras médias buscando adquirir ou se associar a outras visando lucrar em escala de produção e fortalecimento competitivo", afirmou.
Familiar - Uma fonte do setor comunga da mesma idéia de Cordeiro. "A indústria de alimentos ainda abriga muitas empresas familiares, que vêm perdendo a competitividade com a globalização do mercado; um exemplo é a Arisco", lembrou.
A empresa acaba de ser adquirida pela norte-americana Bestfoods, dona da Refinações de Milho Brasil por US$ 490 milhões.
"Na esteira da Arisco, vem uma enxurrada de outras", afirmou a mesma fonte, lembrando que o Sul do País concentra um grande número de indústrias de carnes industrializadas, por exemplo, que já perderam a competitividade. "Algumas são tradicionais, bem capitalizadas e sem problemas de caixa", disse. A seu ver, as fusões terão de ocorrer em nome da competitividade.
"A Seara está de roupa nova na vitrine", lembrou. Ele entende que a Prenda, Minuano, Nobre, entre outras, em breve serão engolidas pelas grandes como Sadia, Perdigão, Vipal e Aurora. É bom lembrar que a Perdigão, vice-líder na área de industrializados adquiriu, há menos de dois meses, 51% das ações do frigorífico Batávia S/A, por R$ 42 milhões.
O negócio contempla ainda uma possível aquisição de participação adicional pela Perdigão a médio prazo. No princípio de janeiro a Perdigão havia anunciado que faria investimentos de R$ 150 milhões, 80% destinados à unidade de Rio Verde (GO) que começa a operar em julho, aumentando a produção em 56% até 2003. Com a nova compra, o investimento saltou para R$ 192 milhões. Em 1999 a empresa desembolsou R$ 153 milhões.
Investimentos - A Nestlé, maior empresa mundial de alimentos, desembolsou no ano passado R$ 131,5 milhões e obteve um faturamento líquido de R$ 3,3 bilhões. "A cifra de investimento neste ano deverá ficar ligeiramente superior", afirmou Ricardo Gonçalves, presidente da empresa.
Na área de bebidas, o grupo português Cintra não deixou por menos. A decisão de injetar cerca de R$ 1 bilhão na construção de cinco fábricas para produção de cerveja já começa a sair do papel, sem temer a poderosa Ambev - associação da Antarctica com a Brahma.
A primeira unidade, em Piraí, no Rio, começa a operar no segundo semestre de 2000, gerando 500 empregos diretos e mais 2.500 indiretos. O projeto exigirá investimentos de R$ 250 milhões. Outras quatro unidades serão instaladas em quatro pontos estratégicos do País, já definidos. Há dois anos no mercado, a Cintra já conquistou 1,8% do segmento.


