Brasília, 31 (AE) - Trabalhadores do setor canavieiro prometem paralisar suas atividades amanhã num grande protesto contra a falta de incentivos à produção sucroalcooleira no País. O Dia Nacional de Luta pelo Emprego e pela Produção deverá contar com manifestações espalhadas pelos municípios canavieiros e terá seu ponto alto numa passeata pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, onde está prevista a participação de 10 mil trabalhadores com tratores, máquinas e caminhões usados na indústria de cana. Segundo os organizadores - Federações dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação, Químicas e Rurais de São Paulo - o objetivo é sensibilizar o governo, montadoras, distribuidoras e a sociedade para a crise que vem ameaçando 1,1 milhão de trabalhadores do setor. Para isso, no início da tarde acontecerá, no Congresso Nacional, o Grito pelo Emprego, com a participação dos trabalhadores, sindicalistas, autoridades e parlamentares da Frente Pró-álcool.
Entre as reivindicações dos trabalhadores estão a compra imediata pelo governo de dois bilhões de litros de álcool, o estímulo ao álcool combustível através da efetiva formação da frota verde, implementação da mistura álcool/diesel, a retomada da produção em grande escala de carros a álcool pelas montadoras e a regulamentação da relação entre fornecedores, produtores e distribuidores.
As medidas reivindicadas pelos trabalhadores já foram, em grande parte, anunciadas pelo governo através das decisões do Conselho Interministerial do Açúcar e do álcool (CIMA). "O problema é que essas medidas ficaram só na agenda positiva do governo", avalia o consultor do setor sucroalcooleiro, Pedro Robério. Apenas a decisão de compra do álcool excedente através de leilões eletrônicos do Banco do Brasil vem se concretizando, na prática, mesmo assim, com críticas dos setores pelo ritmo estabelecido pelo governo, de uma oferta de 100 milhões de litros a cada semana.
Para o secretário-geral da Federação dos Trabalhadores Químicos de São Paulo, Sérgio Luiz Leite, a velocidade do volume que o governo está comprando é muito pequena comparada à rapidez com que os trabalhadores estão perdendo o emprego. Segundo ele, mais de 30 mil trabalhadores do setor já foram demitidos em São Paulo. "Para comprar dois bilhões de litros de álcool excedente
o governo gastaria R$ 600 milhões, o que é pouco se comparado à ajuda de US$ 1,6 bilhão concedida ao Banco Marka", destaca.
Na visão dos trabalhadores, há um "verdadeiro boicote" das montadoras de veículos instaladas no Brasil contra o carro a álcool, o que dificulta a retomada do Proálcool, já que não há veículos disponíveis para entrega. "Cada carro a álcool gera 28 empregos na cadeia de combustíveis enquanto o veículo a gasolina gera apenas sete empregos", afirma.
Logo no início de seu primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou a retomada do Proálcool como uma das prioridades do governo. Em outubro do ano passado, o Conselho Interministerial do Açúcar e do álcool (CIMA) decidiu autorizar a mistura de 3% de álcool ao diesel e a criação da frota verde para enxugar os excedentes do mercado, mas até agora essas medidas não aconteceram na prática. Novos anúncios foram sendo feitos ao longo do tempo, todos em nome da reativação do Proálcool, como a decisão do governo de só manter o benefício da isenção do IPI para os carros a álcool. Para que isso aconteça, no entanto, é preciso uma alteração na lei, e até agora não foi dado nenhum sinal neste sentido, embora a frota de táxis continue sendo renovada.
Outra medida anunciada foi o aumento da adição de álcool à gasolina de 24% para 26%, também não concretizada ainda. "O governo tem a intenção, mas não a resolução", diz o consultor Pedro Robério. Enquanto isso, a tonelada de cana-de-açúcar está sendo paga a até R$ 8 no mercado, "preço mais barato que qualquer coisa no mundo", segundo a própria diretora do Departamento de Açúcar e do álcool do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Elizabeth Seródio. O litro do álcool hidratado comprado pelo governo no leilão da última sexta-feira ficou em R$ 0,25, em média, abaixo dos custos de produção.

mockup