Setor agrícola deixa de receber R$ 500 milhões dos bancos, diz Pratini
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quinta-feira, 06 de abril de 2000
Por Gecy Belmonte 
Brasília, 7 (AE) - O sistema bancário deixou de destinar à agricultura cerca de R$ 500 milhões somente no último semestre do ano passado por dificuldades nas aplicações ou por falta de atrativos nos rendimentos do setor, segundo informação do ministro da Agricultura, Marcos Pratini de Moraes à Agência Estado. Agora, o governo quer reverter este quadro.
Para isso, o ministro desencadeou uma ofensiva junto aos bancos para mostrar que a agricultura pode ser um excelente negócio, especialmente depois do lançamento da CPR (Cédula do Produto Rural) com liquidação financeira e da internacionalização das bolsas de mercadorias. Na próxima quarta-feira Pratini estará em São Paulo, reunido com a direção da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) para explicar as vantagens do investimento na área agrícola e detectar quais os impecilhos que ainda existem para que o setor financeiro amplie esses investimentos.
A reunião com a Febraban acontece depois de contatos já feitos com a diretoria do Bradesco e do Banco Real há duas semanas. "Os bancos precisam descobrir as oportunidades do agronegócios e que o Brasil é a última fronteira agrícola do mundo, com uma área de 66 milhões de hectares disponível no Cerrado", salienta o ministro.
Esta área, se cultivada, conforme avaliação do Ministério da Agricultura, poderia acrescentar mais 200 milhões de toneladas de grãos, ou seja, quase três vezes mais a quantidade produzida atualmente pelo País.
A intenção do governo, conforme disse Pratini de Moraes, é a de convencer os bancos privados, especialmente, a ampliarem não só os recursos destinados obrigatoriamente pela lei da exigibilidade bancária (25% sobre os depósitos à vista) na agricultura, mas também a investirem parte dos fundos de ações - tanto de renda fixa como variável - no setor. No ano passado os bancos destinaram R$ 11 bilhões ao setor rural. Embora esta quantia tenha sido aproximadamente o dobro do destinado em 1996, por exemplo, ainda é insuficiente. Pratini diz que a área aplantada de grãos no País está estagnada em 40 milhões de hectares desde a década de 80. E a causa principal, segundo ele, é a falta de recursos.
A maioria dos financiamentos ainda é concedida pelo Banco do Brasil, sendo que os bancos regionais de desenvolvimento reduziram suas aplicações no setor nos últimos anos. "Queremos reduzir a dependência do setor agrícola dos recursos oficiais. A agricultura não pode continuar disputando recursos com a saúde, educação e a previdência", diz o ministro.
Segundo o ministro, os dados coletados pelo Ministério da Agricultura - já apresentados à direção do Bradesco e do Banco Real - mostram por exemplo, que a participação do Brasil no mercado externo ainda é ínfima, de 0,9%. Mas, em contrapartida, o agronegócio brasileiro já representa 4% nas transações internacionais do setor. "Isso é muito, se considerarmos que os Estados Unidos, maior produtor mundial, possui uma participação de cerca de 10% no agronegócio internacional", ressalta.
Em 1998, por exemplo, as exportações mundiais de café em grãos foram de US$ 12,1 bilhões. Nesse total, a participação do Brasil foi de 19,2%, com vendas externas de US$ 2,3 bilhões. No complexo soja, esta presença não foi menos importante no período: do total mundial de US$ 7,3 bilhões de exportações de farelo de soja, o Brasil ficou com 23,8% das vendas, enquanto para a soja em grãos e para o óleo de soja, esta participação foi de 19,5% e 14%, respectivamente. O País se destaca ainda nas vendas externas de suco de laranja, onde tem uma participação de 80% na comercialização mundial do produto e nas vendas de açúcar
onde detém 32,8 das vendas globais.
Perspectivas - Pratini alerta que as perspectivas do agronegócio brasileiro são especialmente favoráveis no setor de carnes (bovina, suina e de frango), após a erradicação de doenças como febre aftosa e peste suina clássica nos rebanhos brasileiros, e no setor de frutas. Somente nos dois primeiros meses deste ano, as vendas externas de carnes tiveram um aumento quantitativo de 41,09%, enquanto os preços subiram 3,9% na comparação com igual período do ano passado.
Nas exportações de frutas, as quantidades comercializadas tiveram um aumento de 47% em janeiro e fevereiro últimos, enquanto os preços subiram mais de 41% em relação ao ano passado. Os dados que o ministro irá apresentar aos banqueiros demonstram ainda que dos US$ 48 bilhões exportados pelo Brasil no ano passado, US$ 16,5 bilhões foram de responsabilidade da agricultura, com uma participação de 34,4%. Os gráficos e tabelas do Ministério da Agricultura também evidenciam a importância do setor no Produto Interno Bruto (PIB)
que tem se situado em 10% do total de riquezas produzidas anualmente pelo País, sendo que a perspectiva para este ano é a de que esta participação passe para 11%.


