São Paulo, 24 (AE) - O setor agrícola argentino, considerado um dos mais competitivos do mundo, passa por uma das piores crises de sua história. Pesquisa recente do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), combinada com dados do setor privado, mostra o encolhimento dos negócios no campo, tanto em quantidade de produtores como em investimentos.
Em longa reportagem publicada na semana passada, o jornal "La Nación" informa que o setor agropecuário argentino começa a conhecer somente agora os números reais da crise. "A combinação de dados oficiais e de cifras fornecidas por empresas e entidades privadas mostra o forte ajuste que afeta hoje o campo, onde a atividade da maioria dos produtos caiu", diz o "La Nación". Os dados indicam que o impacto na economia agrícola argentina se observa com maior intensidade na desaceleração da demanda por máquinas, equipamentos e insumos agrícolas.
Segundo o jornal, as vendas de tratores caíram de 4.701, em 1998, para 2.430, no ano passado (cerca de 49%) e as de colheitadeiras de 1.067 unidades para 552 (cerca de 48%) no mesmo período. Já a venda de sementes caiu 16%, em comparação com 1998. A essas números somam-se ainda a redução de 54,1% da área plantada de algodão e de 27% na de arroz na safra 98/99, em relação à safra anterior.
"Essa situação, que entre outras consequências gerou uma queda na produção de grãos, de 65 milhões de toneladas na safra 97/98 para 58,5 milhões de toneladas na de 98/99, afetou a reconversão tecnológica, provocou importantes problemas na cadeia de comercialização e prejudicou os compromissos bancários dos produtores", afirma o "La Nación". A safra 99/2000 de grãos está sendo estimada em 60,8 milhões de toneladas. A de soja deve cair de 19 milhões de toneladas para 18,7 milhões de toneladas, embora a área de plantio tenha crescido 2,2%. Já a safra de milho deve ser de 14,7 milhões de toneladas. Embora esses problemas continuem pressionando a rentabilidade agropecuária da Argentina, alguns produtores acreditam que este ano a situação deve melhorar.
Enquanto os representantes do setor começam a pensar em uma nova onda de protestos por causa dessa situação, quase a metade dos produtores agrícolas em condições de ter acesso ao programa de refinanciamento de passivos lançado pelo Banco de la Nación (uma espécie de Banco do Brasil argentino) já começou realizar gestões para aderir a esse benefício, que poderá tirar 23 mil agricultores da situação de inadimplência, que se aproxima de US$ 1,2 bilhão. Dessa cifra, US$ 400 milhões são considerados pelo banco incobráveis, mas os outros US$ 800 milhões se enquadram no programa de refinanciamento.
O refinanciamento é apenas um dos problemas que enfrentam os produtores agrícolas argentinos. O peso dos impostos é outro dos pontos que os dirigentes do setor pretendem atacar nos próximos dias, com protestos que devem chamar a atenção das autoridades do governo e da opinião pública. Uma nova marcha de tratores e a instalação de barracas em frente ao Congresso estão sendo programadas e devem ser decididas amanhã (sábado) na Província de Junín, onde será realizada uma assembléia de agricultores que está sendo organizada pela Associação das Confederações Rurais de Buenos Aires e La Pampa (Carbap), que poderá ter adesão de outras entidades rurais de Entre Ríos, Córdoba e Santa Fé. Há duas semanas o governo lançou um pacote de medidas para tentar sacar o setor agrícola argentino dessa crise. Os produtores que têm dívidas com o Banco de la Nación, por exemplo, terão 20 anos de prazo para recompor a sua situação financeira. De acordo com dados do banco, cerca de 77 mil agricultores devem quase US$ 3 bilhões ao banco. Para reaver parte dessa dívida, o banco decidiu reduzir em 2 pontos porcentuais a taxa de juros que se paga hoje. Isto é, a taxa cairá de 13,5% para 11,5% ao ano.
Mas essa medida tem validade de apenas um ano. Com isso, o Banco de la Nación deixará de receber cerca de US$ 36 milhões. Foi definida ainda uma linha de crédito de US$ 150 milhões para financiar a retenção de estoques em mãos dos produtores para poder vender depois com preços melhores. A taxa para esses créditos será de 10,5% ao ano. Foi definida também outra linha de US$ 100 milhões para financiar a compra de máquinas e equipamentos agrícolas de origem nacional a uma taxa anual de 7% a prazos de cinco anos.

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