Mais de sete anos após a morte de Eduarda Shigematsu, de 11 anos, Ricardo Seidi e Terezinha de Jesus Guinaia, pai e avó paterna da menina, sentarão no banco dos réus do Tribunal do Júri de Maringá (Noroeste), nesta quarta-feira (16). Eduarda morreu no dia 24 de abril de 2019 e teve o corpo encontrado quatro dias depois, enterrado em um imóvel da família, em Rolândia (Região Metropolitana de Londrina).

Eduarda foi vista com vida pela última vez pouco antes do meio-dia de 24 de abril de 2019, quando uma câmera de segurança registrou a menina chegando à casa onde morava com o pai e a avó, às 11h57, segundo a análise das imagens. O desaparecimento foi comunicado à polícia por Terezinha no dia seguinte, o que levou à mobilização de familiares, vizinhos e da Polícia Civil, com apoio do Sicride (Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas), para localizá-la. No dia 28, o corpo foi encontrado enterrado na garagem de um imóvel da família.

Imagens de câmeras de segurança também mostram Ricardo saindo da residência por volta das 13h32 do dia 24, em um Gol. Segundo a acusação, ele já transportava o corpo da filha no porta-malas. Quatro minutos depois, outra câmera registrou o veículo chegando ao imóvel onde Eduarda seria enterrada. O próprio Ricardo admitiu durante a investigação que colocou o corpo no carro e o levou até o local, embora negue ter matado a filha.

Ricardo é acusado de homicídio triplamente qualificado (por asfixia, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio), com aumento de pena por se tratar de vítima menor de 14 anos. Ele também responde por ocultação de cadáver e falsidade ideológica e está preso desde abril de 2019.

Em depoimento à PCPR após a prisão, Ricardo disse que encontrou a filha morta, enforcada, e que, desesperado e com medo de ser responsabilizado, decidiu enterrar o corpo. O laudo de necropsia, no entanto, concluiu que a morte ocorreu por esganadura. Um documento mais recente da Polícia Científica, juntado ao processo em agosto de 2025, reforçou a conclusão e afastou a hipótese de suicídio: foram identificados “estigmas digitais no pescoço da vítima, equimose e escoriações do queixo”. A análise pericial também afirmou expressamente que não havia possibilidade de suicídio por enforcamento.

Terezinha responde pelos crimes de ocultação de cadáver e falsidade ideológica. Segundo o Ministério Público, ela já sabia da morte da neta quando registrou o boletim de ocorrência que comunicava o suposto desaparecimento, no dia 25 de abril. A acusação também sustenta que ela ajudou a manter o cadáver oculto e forneceu informações falsas que desviaram as buscas. Terezinha nega as acusações e afirma que soube da morte apenas no dia em que o corpo foi encontrado. Ela ficou quase dois meses presa, mas foi solta em junho de 2019 e, desde então, responde ao processo em liberdade.

A avó chegou a ser impronunciada em primeira instância, em agosto de 2020, mas o TJ-PR (Tribunal de Justiça do Paraná) acolheu recurso do Ministério Público e determinou que ela também fosse levada ao Tribunal do Júri pelos crimes de ocultação de cadáver e falsidade ideológica. O tribunal, por outro lado, rejeitou o pedido da assistência de acusação para que Terezinha também respondesse perante os jurados pelo homicídio.

Entre idas e vindas, foram oito adiamentos no total desde 2022, quando começaram as tentativas de realização do júri. Após pedidos e recursos sobre o local do julgamento, o processo saiu de Rolândia e foi transferido inicialmente para Londrina. Posteriormente, uma nova decisão levou o júri para Maringá. Entre os episódios está a suspensão, por decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça), da sessão que ocorreria em março de 2023, em Rolândia.

Outros adiamentos ocorreram já em Maringá. O júri chegou a ser marcado para 4 de agosto de 2026, mas foi cancelado por falta de magistrado para conduzir os trabalhos. A expectativa apurada pela reportagem é de que o julgamento, que começa nesta quarta-feira, seja longo e possa seguir até quinta (17) ou sexta-feira (18).

O advogado Hugo Esteves, assistente de acusação, ressaltou que a família de Eduarda aguarda há mais de sete anos para que as provas sejam apreciadas pelo Conselho de Sentença e para que o caso tenha uma resposta da Justiça.

“A assistência de acusação está preparada para o plenário. O processo reúne um conjunto probatório bastante extenso, com provas técnicas, documentais, periciais e testemunhais, e nosso objetivo é apresentar aos jurados aquilo que foi produzido nos autos para que possam formar sua convicção", disse Esteves. Segundo ele, cerca de 18 pessoas devem ser ouvidas durante o julgamento.

O advogado Roberto Ekuni, que representa Ricardo, projeta que o julgamento tenha duração superior a três dias. “A instrução em plenário contempla a oitiva de 12 testemunhas arroladas pelas partes, além dos interrogatórios dos acusados. A defesa confia em um julgamento técnico, calcado na análise cuidadosa das provas produzidas nos autos”, disse o defensor.

Ekuni afirmou que as teses defensivas estão “amparadas em laudos periciais, no exame crítico da prova técnica e em contradições relevantes identificadas na investigação”, e optou por não dar mais detalhes “além do que será sustentado em plenário”.

O advogado Mauro Valdevino, que representa Terezinha, disse em nota que a defesa está “tranquila para o julgamento, confiante na absolvição por tudo o que já foi produzido nos autos na primeira fase do julgamento”.

FAMÍLIA

A tia de Eduarda, Juliane Pires, afirmou que a família passou por longos períodos de espera, dor e frustração, sobretudo devido aos oito adiamentos do júri.

“A cada adiamento, nossa esperança diminuía um pouco mais, porque, além da ausência que já carregamos para sempre, precisávamos conviver com a incerteza de quando finalmente teríamos a oportunidade de ver a história da nossa menina ser julgada. Hoje, apesar de toda a aflição que esse momento nos traz, permitimos que a esperança volte a existir”, disse Juliane, que pontuou que não busca vingança, mas “justiça, verdade e respeito” após a morte da sobrinha.

“Depois de oito adiamentos, tudo o que esperamos é que, desta vez, o julgamento aconteça. Estaremos lá por ela, pela nossa família e pela esperança de finalmente vermos a Justiça cumprir o seu papel. Por nossa eterna Duda”, completou.

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