Belgrado, 10 (AE-AP) - Tropas iugoslavas começaram a sair hoje (10) de Kosovo em caminhões, blindados e ônibus, levando a Otan a suspender suas 11 semanas de ataques aéreos punitivos e as Nações Unidas a autorizar a entrada de uma força de segurança fortemente armada.
Tropas da Otan estavam se concentrando na vizinha Macedônia a fim de começar a missão de paz, apesar de não estar claro quando os primeiros soldados entrarão em Kosovo. "Deveremos estar partindo em breve", afirmou na noite de hoje o tenente-general Michael Jackson, comandante das forças da Otan na Macedônia. Ele não entrou em detalhes.
Jackson também advertiu o rebelde Exército de Libertação de Kosovo (ELK) para não tentar interferir nem tomar vantagem da retirada para prosseguir em sua luta contra as forças sérvias.
Ele disse que altos líderes políticos, incluindo o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, deixaram "bem claro que seria uma extrema estupidez interferir ou criar incidentes" relacionados com a retirada. "Eu endossaria isto e diria que na verdade seria muito estúpido", afirmou Jackson.
Apesar das mortes e da destruição provocadas pelos bombardeios e o iminente desembarque de uma grande força estrangeira em solo iugoslavo, o presidente Slobodan Milosevic clamou vitória.
"O povo é o herói", disse ele na televisão nacional ao mesmo tempo em que o secretário-geral da Otan, Javier Solana, anunciava a suspensão dos bombardeios.
Em Washington, o presidente dos EUA, Bill Clinton, elogiou a unidade da Otan e advertiu a Milosevic que os ataques aéreos podem ser retomados se ele renegar o acordo de paz que permite que mais de 860.000 refugiados albaneses étnicos retornem a Kosovo. "Agora temos um momento de esperança", afirmou Clinton. "Temos de terminar o trabalho e construir a paz".
A retirada das tropas teve início horas depois que generais da Otan e da Iugoslávia assinaram um acordo sobre os detalhes da operação. Este acordo foi um desdobramento de um plano de paz aceito por Milosevic na semana passada depois que a Rússia e o Ocidente o apresentaram como sendo não aberto a negociações. Todos os estimados 40.000 soldados e agentes especiais da polícia devem sair da província em 11 dias.
Na tarde de hoje, cerca de 150 caminhões, outros veículos militares e carros carregados de bagagens e caixas passaram com soldados por Merdare, na fronteira nortista de Kosovo, segundo jornalistas ocidentais no local. Entre o comboio estavam veículos blindados e armamento antiaéreo móvel.
Soldados no comboio sorriam e faziam o sinal sérvio com três dedos significando unidade e mostravam souvenirs aparentemente tirados de casas albanesas. Dois soldados em um caminhão acenavam com um tapete que tinha em seu centro a bandeira albanesa e um fotografia moldurada de Marshal Tito, o lendário ex-líder comunista da Iugoslávia.
A agência de notícias independente Beta, divulgou que 20 carros de civis sérvios uniram-se ao comboio, seus veículos carregados de bagagens. Aparentemente eles temiam por seu futuro numa província majoritariamente albanesa étnica sem a proteção do exército e da polícia.
Em Pristina, capital da província de Kosovo, as ruas estavam aparentemente calmas na tarde de hoje, mas havia sinais de tensão. Quando um fotógrafo tentou tirar uma foto de um idoso num trator, ele sacou uma pistola. "Você não pediu minha permissão. Talvez eu devesse te dar um tiro agora", falou ele antes de se afastar.
Kosovo é uma província sulista da Sérvia, a república dominante na Iugoslávia. Apesar de os sérvios considerarem a região como o berço da nação, de sua população antes da guerra de 2.1 milhões, 90% eram albaneses étnicos.
A crise começou em fevereiro de 1998, quando Milosevic reprimiu o ELK. A Otan começou a bombardear a Iugoslávia em 24 de março, depois que Milosevic recusou-se a assinar um acordo de paz.
Desde o início dos bombardeios, soldados iugoslavos foram acusados de realizar uma campanha sistemática de terror para expulsar os albaneses étnicos. Os sérvios alegavam tentar reprimir um movimento terrorista secessionista, uma contenção enfatizada nesta quinta-feira por Slobodan Milosevic.
"No decorrer das diligências do ano passado em nosso país, um lema era ouvido de vez em quando: Nós não desistiremos de Kosovo", disse Milosevic em pronunciamento na televisão. "Nós nunca entregaremos Kosovo. Hoje, a integridade territorial está garantida..."
Ele disse que apenas 462 soldados sérvios e 114 policiais morreram em combate. Estimativas ocidentais empurravam as mortes entre os iugoslavos para mais de 5.000. Milosevic também não fez menção a mortes de civis nos bombardeios, cujo número atinge 2.000, segundo a imprensa estatal.
Em Pristina, Vladimir Lazarevic, comandante dos batalhões do exército iugoslavo na capital de Kosovo, expressou orgulho por seus soldados. "Digo aos soldados para que não se sintam derrotados", declarou.
"Eles sentem com se tivessem cumprido suas missões. Esperamos que as forças internacionais cumpram sua responsabilidade agora e defendam o povo sérvio nesta terra sagrada."
A suspensão dos bombardeios abriram o caminho para que o Conselho de Segurança da ONU aprovasse uma resolução autorizando uma força de manutenção de paz de cerca de 50.000 soldados. A votação foi por 14 a 0, com a abstenção da China.
Soldados britânicos e franceses serão os primeiros a entrar em Kosovo. Sua missão será garantir a passagem por uma grande rodovia entre a Macedônia e o sul de Kosovo. Os primeiros soldados norte-americanos deveriam entrar em Kosovo pouco depois.
A Otan informou que mais 1.200 soldados mobilizaram-se para a Macedônia nas últimas 24 horas, elevando o total dos soldados da Otan para 18.500.
Os mantenedores da paz enfrentarão uma dura tarefa devido às minas terrestres, às pontes destruídas e aos vilarejos queimados. Eles devem estabelecer, com rapidez, segurança em áreas deixadas pelos sérvios para evitar saques e crimes de vingança de albaneses étnicos contra civis sérvios em revide às atrocidades.
Em comunicado divulgado hoje, os rebeldes kosovares que lutam contra soldados sérvios declararam cessar-fogo uma vez que as forças iugoslavas pararam com suas operações em Kosovo e iniciaram sua retirada. Mas o separatista Exército de Libertação de Kosovo (ELK) diz que se reserva o direito de voltar a pegar em armas no caso de ataques promovidos por "unidades sérvias hostis".

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