Belgrado, 14 (AE-REUTERS) - Autoridades sérvias acusaram nesta quarta-feira (14) a Otan de ter matado pelo menos 64 pessoas em dois ataques aéreos contra um comboio de refugiados kosovares albaneses. A Otan garantiu que atacou apenas veículos militares em estradas de Kosovo.
"Quando os aviões vieram, eles nos disseram para pularmos mas era tarde demais", disse um homem, falando em meio a tratores abandonados e pertences espalhados na estrada no oeste de Kosovo.
A Otan, que havia rapidamente admitido um ataque acidental contra um trem na segunda-feira, anunciou hoje que não podia confirmar notícias de que seu ataque de hoje causou vítimas civis.
"Os pilotos comunicaram que atacaram apenas veículos militares", afirmou a Otan, acrescentando que "a notícia divulgada será plenamente investigada uma vez que todos os detalhes da missão forem revistos".
Já o porta-voz do Pentágono, Ken Bacon, disse ter informações de que depois que o comboio militar foi atingido, "militares apareceram e atacaram civis".
Dezoito corpos, alguns sem os lábios, ainda estavam espalhados quando repórteres escoltados por oficiais sérvios chegaram ao local. A juíza investigativa Milenka Momcilovic disse que 20 pessoas foram mortas e quatro feridas.
O Centro de Imprensa administrado pela Sérvia na capital regional kosovar de Pristina divulgou que 44 pessoas foram mortas num outro ataque contra outro comboio de refugiados numa estrada entre Djakovica e Prizren, no sul.
A última carnificina na província iugoslava convulsionada pela guerra ocorreu enquanto líderes da União Européia (UE) apoiavam um plano de paz das Nações Unidas para Kosovo. Eles disseram que a campanha de três semanas de bombardeios da Otan seria suspensa caso Belgrado atendesse imediatamente exigências-chaves.
Um comunicado anunciou que elas são: um fim imediato do uso da violência; retirada de todas as forças; entrada de uma força de segurança internacional e o retorno de todos os refugiados.
"(Os líderes da UE) afirmam que cabe agora às autoridades iugoslavas aceitarem plenamente as exigências internacionais e dar início imediatamente à sua implementação".
Mas mais cedo em Belgrado, onde o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic fez sua primeira aparição pública desde o início dos bombardeios em 24 de março, seu convidado, o presidente da Bielo-Rússia, Alexander Lukashenko, deu poucas esperanças de uma mudança na linha dura da Iugoslávia.
Lukashenko disse a repórteres que havia perguntado a Milosevic se era possível um compromisso no confronto de Belgrado com o Ocidente.
"Ele me deu o limite máximo além do qual ele e seu povo não podem ir... A Iugoslávia está pronta para aceitar observadores civis das Nações Unidas ou representantes de outros países. Observadores civis, não equipes do exército ou da polícia", disse Lukashenko.
"Esses representantes têm de ser de países que não estão envolvidos nos recentes bombardeios da Otan contra a Iugoslávia...", afirmou.
A Alemanha, que exerce a presidência rotativa da UE, também lançou seu plano de paz próprio, que envolve a suspensão dos ataques aéreos por 24 horas se Milosevic começar a retirar tropas de Kosovo.
O ministro do Exterior alemão, Joschka Fischer, disse que a Rússia, que tem se oposto fortemente à campanha de bombardeio, tinha "concordado quase completamente" com seu plano apesar de ainda ter preocupações em relação à composição de uma força internacional de paz para Kosovo.
Os Estados Unidos anunciaram que não iriam nem discutir uma pausa nos bombardeios até que a Iugoslávia aceite todas as exigências ocidentais.
O porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart, reiterou a insistência dos EUA que qualquer força de paz para Kosovo tem de estar sob o comando da Otan - uma condição que a Rússia tem repetidamente rejeitado.
A Otan garante que está alvejando apenas instalações militares
ou relacionada com os militares, em sua campanha aérea, mas já admitiu que seus mísseis erraram o alvo três vezes.
O ataque contra um trem na segunda-feira parece ter sido o mais letal. A agência de notícias iugoslava Beta anunciou hoje que o número de mortos já era 14 e poderia chegar aos 50.
"O número total de mortos confirmados até agora é 14", teria dito o juiz investigativo Nebojsa Stojcic. Ele acrescentou que 10 corpos já haviam sido identificados, entre eles o de uma criança de cinco anos.
Stojcic disse que o número de vítimas tende a aumentar baseado no número de corpos e partes de corpos encontrados no local, pessoas desaparecidas, pertences pessoais e outras evidências extraídas dos destroços do trem.
O comandante da Otan, general Wesley Clark, pediu desculpas pelo ataque, classificando-o de um "infeliz acidente". Segundo ele, o trem cruzou uma ponte que estava sendo atacada.
Em Paris, a televisão francesa mostrou imagens de fumaça sobre vilas no sudoeste de Kosovo e afirmou que guerrilheiros albaneses étnicos haviam sido derrotados nelas.
"Não admito que perdemos território. Isto é estratégico. Estamos recuando para proteger nossos civis", afirmou um guerrilheiro do Exército de Libertação de Kosovo (ELK) a um repórter da televisão francesa.
Observadores internacionais informaram que forças sérvias fizeram 40 disparos de morteiro no norte da Albânia, aparentemente visando aos guerrilheiros kosovares. Alguns disparos caíram perto da escola de uma vila, mas ninguém ficou ferido.

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