Brasília, 21 (AE) - O serviço de inteligência da Presidência da República passará a colaborar de forma permanente nas ações do governo federal para evitar surpresas em conflitos fundiários. A decisão foi tomada após a constatação de que a ameaça de ocupação da fazenda do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG), por trabalhadores rurais e o saque de um caminhão da propriedade foi decorrente de falhas no sistema de contra-informação.
Uma autoridade ligada ao Palácio do Planalto disse que ao voltar da Europa o presidente deve acatar sugestão de colaboradores e criar uma coordenação, subordinada à Casa Civil, entre o serviço de inteligência e os Ministérios da Justiça e da Política Fundiária para evitar surpresas desta natureza. Até agora, o setor de inteligência vinha atuando ocasionalmente, somente em momentos de crise com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Com a decisão dos trabalhadores de montar acampamento em frente à fazenda do presidente, os assessores do Planalto passaram a defender uma atuação integrada, capaz de garantir respostas mais rápidas e eficazes diante de situações de risco. O governo acredita que a atuação coordenada das áreas de inteligência, Justiça e reforma agrária acabará com a fragilidade atual, permitindo fazer diagnósticos, identificar pontos frágeis, definir estratégias seguras de ação e avaliar as consequências.
Segundo assessores, Fernando Henrique chegou a confessar
durante sua viagem a Roma, que está cansado dos atos violentos e não está mais disposto a tolerar surpresas, como o episódio do saque ao caminhão que saía da fazenda carregado de sementes de soja e de adubo. Embora os agricultores ameaçassem a todo instante invadir a propriedade, protegida por homens da elite da Polícia Federal, não havia a expectativa de que uma ação deste tipo pudesse ocorrer.
O saque foi interpretado pelos colaboradores do governo como uma agressão a um símbolo ligado à própria Presidência da República."Ficou absolutamente evidente a fragilidade da segurança", avaliou um dos colaboradores do presidente. O governo federal foi lento e considerou ineficaz o apoio da polícia de Minas Gerais, que não tinha um grande contingente no local, não podendo evitar o roubo da carga.
O governo diz que já sabia, com antecedência de sete dias, da intenção dos agricultores de acampar em frente a fazenda. Mas somente depois do saque o governo federal decidiu entrar no caso. Até então restrito à PM mineira e à Polícia Federal, que, com seis homens, guardava a casa-sede. Logo depois do saque, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, enviou para o local uma tropa do Exército integrante do Batalhão da Guarda Presidencial.
A decisão irritou o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, desafeto político de Fernando Henrique. O governador reagiu negativamente a uma carta enviada pelo general Cardoso. Mas o general não perdeu a oportunidade, em público, de evitar que o caso se transformasse em polêmica. "A PM mineira e o governo de Minas têm cooperado muito", repetia o ministro.

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