Colônia, Alemanha, 03 (AE-AP) - O presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, e o Parlamento sérvio aprovaram hoje (03) o plano proposto pelo Grupo dos Oito (sete países mais ricos e a Rússia) para pôr fim ao conflito de Kosovo, mas a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) vai manter os bombardeios até que as "palavras sedutoras" do presidente iugoslavo sejam transformadas em fatos. A decisão de Belgrado foi comunicada por Milosevic ao negociador russo Viktor Chernomyrdin e ao presidente finlandês, Martti Ahtisaari, que se reuniram com ele.
"Espero que a aceitação do plano leve a contatos entre militares a fim de que possamos aplicá-lo na prática, iniciar a retirada das tropas iugoslavas de Kosovo e suspender os bombardeios", disse Ahtisaari, que apresentou os resultados de seu encontra com as autoridades sérvias à cúpula da União Européia (UE), reunida em Colônia. O presidente finlandês fez uma ressalva: "Não assinei nenhum documento em Belgrado."
Pouco antes, Ahtisaari havia conversado com o subsecretário de Estado dos EUA, Strobe Talbott, que, por sua vez, entrou em contato com o presidente Bill Clinton.
Clinton classificou a notícia de "passo à frente", desde que Milosevic dê uma demonstração prática e verificável de suas intenções. "Há vários anos ele vem enganando a comunidade internacional", lembrou o porta-voz do Departamento de Estado, James Rubin. "Esperamos fatos e não palavras sedutoras."
Gehard Schroeder, o chanceler alemão que exerce a presidência rotativa da UE, reagiu o mesmo otimismo moderado de seus colegas europeus. "Conseguimos um grande avanço político em direção da paz e não vamos deixá-la escapar de nossas mãos."
Chernomyrdin foi recebido quase como herói em Moscou. Ele é considerado o grande artífice do acordo diplomático, embora a oposição chame de " menino de recado da Otan".
No plano - criticado pelos militares russos - constam todas as exigências da Otan para encerrar os bombardeios - fim da campanha étnica em Kosovo, retirada dali de todas as forças sérvias, garantias de retorno dos refugiados, autonomia política e administrativa para a maioria albanesa étnica e desembarque de uma força internacional para fazer cumprir o acordo. A aceitação dele por Milosevic foi recebida com alívio pela população sérvia - diante da perspectiva concreta do fim de 73 dias de bombardeios - que a classifica, no entanto, de capitulação.
O maior desafio para o presidente iugoslavo será agora convencer os sérvios que a destruição parcial do país serviu para alguma coisa. Os meios de comunicação estatais procuravam vender hoje o acordo como uma vitória do governo que "conseguiu manter a integridade do território" e tirar a questão da Otan (em teoria) e levá-la ao âmbito da ONU.
Antes de se pronunciar oficialmente, Milosevic submetiu o acordo ao Parlamento da Sérvia, que o aprovou por 136 votos contra 74 e 36 abstenções. O Partido Sérvio da Renovação, do ex-vice-primeiro-ministro Vuk Draskovic (demitido há duas semanas por falar demais), votou ao lado do Partido Socialista Sérvio (de Milosevic). A maior oposição ao documento partiu do Partido Radical, do ultranacionalista sérvio e ex-primeiro-ministro Vojislav Seselj.
O governo de Montenegro (que não escondeu sua simpatia pelo Ocidente durante o conflito) recebeu o desfecho da crise em Belgrado com preocupação. "A situação aqui é potencialmente perigosa", disse o ministro da Justiça, Dragan Soc. "Faz parte da lógica de Milosevic para se manter no poder encerrar uma crise e abrir outra", acrescentou dando a entender que Montenegro pode ser agora a chamada bola da vez.
A Otan partilha dessa preocupação, o que explicaria ter concentrado a maior parte de seus bombardeios ao sul da Sérvia - reduto eleitoral do presidente iugoslavo. O financiamento europeu da reconstrução da Iugoslávai seria condicionado ao afastamento de Milosevic, asseguram altos funcionários da UE.

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