Arquivo FolhaEcoO líder dos seringais, meses antes de ser assassinado: tiro comoveu o mundoHá nove anos, em Xapuri (AC), um tiro de espingarda calou o sindicalista Chico Mendes. O disparo ecoou em todo o mundo, mas a comoção causada pelo assassinato não resolveu o problema dos seringueiros, a principal causa da luta e da morte do sindicalista. Até hoje esses trabalhadores recorrem a ele: no túmulo de Chico são depositados bilhetes, peças de roupas e pedidos de ajuda dos seringueiros. No Seringal Porto Rico, onde nasceu Chico, foi erguida uma pequena igreja de madeira, e grupos de trabalhadores se reúnem frequentemente para rezar por ele, elevado quase à condição de santo.
Chico Mendes morreu no dia 22 de dezembro de 1988, com um tiro disparado por Darci Alves Pereira, a mando de seu pai, o fazendeiro Darly Alves da Silva. O principal motivo foram os ‘‘empates’’, meio utilizado pelo sindicalista para evitar o desmatamento. ‘‘Ele ia para o meio da floresta, com homens, mulheres e crianças, e se colocava no meio dos trabalhadores com motosserra, e evitava o corte das árvores’’, recorda a viúva, Ilzamar Mendes. ‘‘Depois que ele morreu, nunca mais houve empates’’.
Foi Ilzamar quem percebeu que o túmulo do marido estava sendo visitado por pessoas que deixavam recados de agradecimento ou de pedidos. ‘‘Três anos depois da morte de meu marido, começamos a encontrar os bilhetes, quase sempre sem identificação ou apenas com o primeiro nome’’, diz Ilzamar. O irmão de Chico, José Mendes Neto, o Zuza, já achou roupas de crianças sobre a lápide e bilhetes de agradecimento. ‘‘Não sabemos de quem é, mas não foi a primeira vez que isso aconteceu’’, diz.
A família de Chico Mendes não quer qualificar o sindicalista como ‘‘santo’’, mas reconhece que os bilhetes e roupas encontrados no túmulo são de seringueiros, à espera de intervenção divina para seus problemas. ‘‘Os amigos de Chico sempre dizem que a alma dele é milagrosa’’, afirma Zuza.
‘‘Hoje, pela situação de dificuldade em que eles se encontram, se agarram a tudo, inclusive a alma de meu irmão’’. Zuza acredita que amanhã, 9º aniversário da morte do sindicalista, o movimento no cemitério de Xapuri será intenso.
Sem preço Quando Chico Mendes era vivo, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri - hoje praticamente inoperante - era intenso o movimento. ‘‘Tinha gente de todos os lados, procurando ajuda para poder sobreviver’’, conta Ilzamar. Hoje, segundo ela, os seringueiros não têm mais a quem recorrer. ‘‘A borracha está sem preço no mercado e muitos deixaram o seringal em busca de uma nova vida na cidade’’.
Apesar do reconhecimento internacional, a fama de Chico Mendes pouco ajudou os seringueiros. Segundo Ilzamar, instituições de várias partes do mundo arrecadaram dinheiro em nome do sindicalista, mas pouca coisa chegou a Xapuri e aos seringais. ‘‘Não recebemos nem 10% do que foi arrecadado por a풒, calcula o prefeito Júlio Barbosa (PT), que sucedeu Chico Mendes no sindicato.

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