Os dez sequestradores do empresário Abílio Diniz entraram, ontem, em greve de fome por tempo indeterminado, em São Paulo. Eles alegam que não foram cumpridas as promessas da Justiça de estudar a concessão do regime semi-aberto para cumprimento do restante da pena e a do governo brasileiro de transferir os nove estrangeiros do grupo para seus países de origem são dois canadenses, dois argentinos e cinco chilenos.
Os presos pedem que o presidente Fernando Henrique expulse os estrangeiros do País por causa do impasse judicial. Como exemplo desse problema, citam o fato de a Vara das Execuções Criminais ter negado, em maio, o direito de cumprir a pena em regime semi-aberto ao líder do grupo, o argentino Humberto Eduardo Paz.
Cumprindo a pena naquele regime, o sequestrador poderia sair da cadeia para trabalhar, voltando à noite para dormir. A Justiça negou-lhe esse direito sob a alegação de que, sendo estrangeiro, não poderia trabalhar, condição necessária para a concessão do benefício, e pelo risco de ele fugir do País.
O anúncio da retomada da greve de fome, interrompida em abril, foi feito após os sequestradores receberem a visita de parlamentares do PT e do PC do B. Primeiro, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) visitou as duas mulheres, que estão no presídio feminino do Butantã, zona oeste de São Paulo. Elas aderiram à greve antes que os homens do grupo.
A última refeição da chilena Maria Emília Marchi Badilla e da canadense Christine Gwen Lamont foi o café da manhã. A visita do senador durou 40 minutos. ‘‘Em seguida, o senador conversou, por telefone, com o ministro da Justiça, Renan Calheiros, que lhe pediu que tentasse impedir a greve, pois o governo deve dar uma solução para o caso até o fimdo ano’’, disse o deputado federal Luis Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Ele e outros seis parlamentares visitaram, às 12 horas, os homens presos no Centro de Observação Criminológica (COC), no Carandiru, que iniciaram a greve após o almoço.
Segundo o deputado, além do telefonema, Suplicy ia se reunir com o ministro para tratar da questão. Hoje, deve ocorrer outra reunião do ministro com os parlamentares que visitaram os sequestradores. ‘‘Os presos querem ter os mesmos direitos que os detentos brasileiros, pois já cumpriram um tempo suficiente de pena para obter o direito do regime semi-aberto’’, disse Greenhalgh.
Após a visita, o Comitê de Apoio aos Presos divulgou um manifesto dos sequestradores, que diz que a greve foi reiniciada porque tiveram suas esperanças ‘‘frustradas’’. ‘‘Nosso movimento não cessará até os companheiros canadenses terem sido transferidos para seu país; os argentinos e chilenos, expulsos do Brasil e Raimundo, indultado’’, diz o documento, que conclui: ‘‘Se necessário, pagaremos com nossas vidas’’.
Com os parlamentares estavam familiares dos presos. ‘‘Se não houver uma solução, minha mãe vai morrer’’, disse a antropóloga Bego¤a Ojeda, de 28 anos, filha da chilena Maria Emília. Ela estava acompanhada do marido Gustavo e da filha, Raien, de dez meses.
Embora a Justiça tenha considerado o sequestro de Abílio Diniz um crime comum, o grupo e os parlamentares que o apóiam insistem em afirmar que ele foi político e visava à obtenção de dinheiro para a guerrilha em El Salvador, país da América Central. Os dez presos, entre eles o brasileiro Raimundo Rosélio Costa Freire, foram condenados a penas de 26 e 28 anos de prisão pelo crime ocorrido em 1989.

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